19 de julho de 2009

O Cofre

Enternece a forma como as pessoas tentam ler peitos. Assim com um estetoscópio como o fazem os médicos mas com a curiosidade e perícia de um assaltante de cofres à espera do click ou lá qual é o som que os cofres fazem no seu interior para que possam dar uma olhada cá dentro.
É por isso que tantas vezes nos lançamos nos braços de outra pessoa como um deprimido crónico o faz ao psicólogo. É a salvação que vem aí e nós queremos que tudo seja simples e processado. Fácil de ler e resolver. A questão é que o nosso peito usa sempre a blindagem mais forte com fechaduras de combinação e chaves impossíveis de copiar. Quem está de fora, ainda a tentar abrir o nosso cofre, dificilmente acredita que não sabemos onde guardamos a chave. A combinação foi mudada para um código que nunca esqueceríamos mas esquecemos.
Aí entra a análise da retina. Muita gente pode saber a combinação; a chave pode ter sido roubada ou perdida mas os olhos, se forem os olhos certos, abrem o peito sem resistência.
E não abre. A portinha que chega para o coração se expor não abre e aquela pessoa que se pensava ser a salvação não é nada. É mais uma curiosa a olhar para uma porta que, incapaz de lidar com o que encontraria lá dentro, não merece que ela se abra.
Esta semana voltou a mim um forte sentimento de orgulho e felicidade, fruto de umas tantas memórias que por estarem lá muito para trás (tenho de contar anos com dedos das mãos para perceber quanto) até já se vão esquecendo. Memórias de um tempo em que a porta não abriu nem a martelo e durante o qual o conteúdo foi crescendo em brilho em vez de mirrar com a falta de ar.
E noutro dia noutro sítio, com outros olhos a tentarem sem pressa, a porta lá se abriu sem resistência. Lá dentro um coração fresco acabado de colher e espaço suficiente para outro morar confortável.

12 de julho de 2009

A Sílvia, a Diana e a Cláudia

São três mulheres da minha vida e, embora tenha conhecido duas Dianas, uma Sílvia e uma Cláudia, as do título nem sei quem são.
A Sílvia morava perto do centro de saúde mais próximo de minha casa e era familiar de um tipo que tinha um armazém lá perto. A Diana passa todos os dias perto de uma rua de acesso ao centro comercial Parque Nascente. A Cláudia apanhava algumas vezes camionetas e sabia o que Je t'aime quer dizer. Estas três senhoras morreram recentemente.
Não sei se já morreram efectivamente mas, para mim, morreram porque já não estão no pedaço de parede ou chão que as imortalizava. A inscrição "Cláudia Je T'aime" foi pintada por cima quando se fizeram as obras na garagem onde chegam as camionetas vindas de e idas para Lisboa. A inscrição "Diana Adoro-te!" foi obliterada pela passagem dos camiões das obras que rasgarão a linha de metro para Gondomar.
A Sílvia, a mais antiga destas mulheres, vivia numa parede verde em letras amarelas colocadas mesmo por cima da entrada da garagem dos tais armazéns. Encontrou o seu fim depois da venda do edifício a alguém que julga que uma fachada canelada de alumínio é mais bonita que um nome de mulher.
Imagino se quem as matou tentou descobrir quem elas eram para lhes pedir desculpa pela profanação da homenagem e do nome ou se fez como um cirurgião que errou num corte de bisturi e passou o pelouro das desculpas para uma enfermeira imigrante de quem nem sequer sabe o nome.
Que lhe dê o nome de Sílvia, Diana ou Cláudia mesmo que ela discuta que no país dela não existem esses nomes e ao menos que durma por lhes ter dado uma cara.

5 de julho de 2009

1/2

Esta semana, no dia 2 de Julho, passou-se uma data que passa (passando o pleonasmo de tantos passares e passados) ao lado da maioria das pessoas. Este é o centésimo octagésimo terceiro dia do ano. É o meio do ano.
Há para trás cento e oitenta e dois dias e restam outros cento e oitenta e dois para diante. São estas datas que nos obrigam a parar e reflectir sobre o que se passou e quantas das resoluções de ano novo já nos encarregamos de resolver.
A nossa vida, felizmente infelizmente felizmente infelizmente não tem backups como os que fazemos antes de formatar o disco do computador. Fazemos borrada e a nossa vida vai para sítio incerto e não há técnico de informática que nos devolva o que perdemos. Este meu meio ano foi para parte incerta (que é onde está sempre na realidade) no plano afectivo e vai caminhando para a incerteza no plano profissional. Em ambos não sinto a necessidade de backups embora um fiozinho de ligação à terra, a haver, daria uma segurança que conforta.
Grande parte deste meio ano foi passada num leve sofrimento, que não explicarei porque nunca se sofre sozinho, sempre interceptado por momentos de felicidade e sorrisos cumplices que se sobrepunham sempre aos tempos sombrios. Na vida, como nos computadores, um reiniciar ainda resolve muitos problemas e não, não é preciso ser à bruta. Tendo paciência a nossa janela reinicia sem que uma brisa deixe de entrar e a anterior brisa, de aroma diferente, esvoaça para outra janela sem partir os nossos vidros.
Agora vive-se a sorrir, a passear, a comer pêlos de gata e a ressonar (nada que não se resolva com uma cotovelada, mais uma vez, como com os computadores) sem peso nos ombros mas imensa curiosidade assustada de ver se a tempestade deve ser agarrada ou não.
Profissionalmente continuo nesta carreira de cantor de rua figurado. Canto com talento e esforço mas para já nenhum olheiro das editoras se aproximou e como sou orgulhoso, arrogante e sei o que valho o chapéu das esmolas fica na cabeça mesmo que os transeuntes fiquem tontos à procura de onde meter a moedinha como se eu fosse uma máquina de café.
O meu meio ano passou rápido mas deixou marcas lentas, como estrias que ficam depois de uma dieta milagreira. E as estrias, como as rugas, sempre me pareceram mais sinais de coragem e viagem do que imperfeições a combater.
E hoje, até já falta menos de metade para o final do ano.

28 de junho de 2009

Pocahontas

Muito antes de eu saber o que era uma mulher bonita já a mulher mais bonita da praia era aquela. Tinha um olhar tristonho encaixado na cara oval. O cabelo negro descia pelas costas e perdia-se até ao final da coluna acabando mesmo ali, no início da anca que ia sempre tapada com uma saia comprida preta. E tal como no cinema, as mulheres belas de olhos chorosos e cabelos torrenciais têm um passado que não deixa o futuro em paz.
Esta mulher, que pouco tempo depois encontraria na personagem da Disney, Pocahontas caso esta tivesse a pele de uma camponesa nortenha, arrastava sempre à sua frente um homem mais velho. Uma efígie sentada em eterna contemplação como um pensador de Rodin a olhar em frente. A cara esculpida muito mal cicatrizada às mãos do tempo. Esta estátua era o pai da Pocahontas nortenha.
Dizia a lenda local, porque mulheres daquelas precisam de explicação e mesmo que não a haja inventa-se, que naquela família corria uma doença que aos trinta anos tolhia os movimentos e sensações. Era quase como uma maldição bíblica de um Midas que transformava a sua prole em granito. A mãe da Pocahontas tinha partido há muito sem lhe deixar nada a não ser os olhos largos e a anca doce que enchia a saia preta de brilhos de veludo.
Não sei o que a animava. Especialmente quando dava o iogurte às colheres de chá ao pensador havia nela uma graça e ânimo que parecia estar sempre grávida. Parecia que para ela havia esperança a cada colher de chá de iogurte natural como se estivesse a alimentar um filho. Ela, como a mãe do pai. Imaginem a Pocahontas a viver na Ilha de Páscoa e a alimentar uma das austeras estátuas a desejar, porque os olhos grandes têm mais líquido lacrimal e transparecem como lagos, poder tê-la no colo.
Assim era a mulher mais bonita da praia para a qual eu ia.
Há cerca de ano e meio morreu o melhor amigo do meu pai e eu fui ao funeral com o intuito egoísta de observar como o filho do falecido, um ano mais velho que eu, lidava com a perda do pai. Na minha família também há genes raquíticos e há que estar preparado para todas as eventualidades.
Teria a Pocahontas uma bola de cristal na figura granítica do pai? Estaria ela a ver no que se ia tornar?
Teria ela tomado a decisão de não continuar a transmissão do gene granítico acabando assim com a maldição da família?
Ela deixou de ir à praia e ao longo dos anos fui conhecendo mulheres que me mostraram o que eram ancas perigosas, olhos límpidos e cabelos como estradas. E nunca vi essas coisas que as mães deixam às filhas de herança numa jovem a arrastar uma cadeira de rodas com uma cariátide alimentada a iogurte natural numa colher de chá sentada em contemplação, silenciosamente, como uma estátua onde deixar uma rosa todos os dias parece fazer a diferença.

21 de junho de 2009

Blues

Há 3 semanas foi publicado no site Post Secret o segredo de uma pessoa que dizia que sabotava todas as suas relações para ser um melhor músico. Esse site é muito propenso a que nos sintamos identificados com algumas das coisas, algumas delas assombrosas, que por lá se confessam mas nunca nenhuma me tocou tanto como esta. Não no sentido da sabotagem que, pelo menos de forma propositada, não exerço mas sim na medida em que me sinto mais altivo e criativamente fértil quando me sinto miserável.
Uma quantidade enorme de grandes artistas sofreu de doenças crónicas e/ou degenerativas. Pensem na Frida Kahlo e na sua coluna despedaçada ou no Van Gogh e a sua eterna desilusão. Mais ainda pensem em todos aqueles pintores que para atingir a finura ideal do traço afiavam os seus pincéis nos lábios num beijo envenenado de chumbo. Eles iam definhando com queda de cabelo, psicoses, falhas renais e cardíacas, impotência e, em casos extremos, morte. De cada vez que pintavam uma pestana de musa ou um bigode de banqueiro entregavam mais um pouco de si à arte, literalmente.
Nós, como observadores, somos cúmplices involuntários de um suicídio e como nos divertimos à custa desse sofrimento só me ocorre a palavra sadismo para descrever a forma suja mas inocente como beneficiamos do sofrimento dos artistas.
Uma professora de História da Arte disse-nos uma vez que a representação pictórica da melancolia tinha praticamente desaparecido. Na minha opinião isso aconteceu porque o artista queria pintar melancolia e só lhe perguntavam
-Porque é que o senhor da pintura está triste?
e ter de explicar que ele não estava triste mas sim melancólico seria como um comediante explicar a punchline da sua piada.
Será desta falta de pintura que surgiu Antero de Quental?
Eu entendo bem o/a artista que enviou o segredo porque também eu, de forma incrivelmente cíclica, sou um dependente da melancolia. Uma vez disse a uma namorada que depois se tornou numa pouco saudosa ex que por vezes sentia saudades de me sentir melancólico e solitário. Ela, coitada, que nunca entendeu a diferença entre melancolia e tristeza, achou estranho e disse que isso era estúpido. Anos depois descobri a Ana Moura que dizia numa música demasiado recuada do seu CD "Já não temos fome mãe / nem temos também / saudades de a não ter".
Parece-me ser este o caso da melancolia. Do sofrimento nos olhos e ombros nasce nobreza.
E a escrita melhora exponencialmente.

14 de junho de 2009

-te

Conseguimo-nos lembrar de umas 30 palavras sufixadas com -te.
Aposto, mesmo assim, que sei em qual vocês estão a pensar...
Há palavras que se vulgarizam, seja por moda ou simples uso excessivo, palavras que um dia foram inventadas por alguém que deve ter pensado ter finalmente conseguido classificar um sentimento ou emoção e que afinal inventou uma palavra para todos usarmos como roupa interior.
Outras palavras há que temos de proteger e usar com cautela. Usar só em casos especiais e quando nada mais existe. Um pouco como chorar só quando a tristeza não é suportável pelo corpo e lá cai a lágrima.
Assim é com o "amo-te" que se diz por aí. Devia só ser dito quando o batimento do coração chega aquele ponto de quase rotura em que o amo-te seria como o buraco no crânio que alivia a pressão num cérebro inchado. O amo-te era o buraco nas costelas que salvava mas ao mesmo tempo desprotegia o coração. O amo-te devia atingir-nos sempre como um cubo de gelo quente e suave. Devia ser sempre forte e doce e tocante e inesperado.
Devia ser mais vezes dito na escuridão do quarto com a tal pessoa abençoada pelo amor declarado dentro dos braços a apertar o abraço quando ouvia as palavras que só para ela se abrem. Devia ser dito de surpresa a meio de uma balada dançada sem passos combinados ou então a meio de um jantar sem televisão nem luzes nem sumos baratos.
Podem dizê-lo no carro e no trabalho. Podem dizê-lo sentados na retrete ou de mão dada na base da Torre Eiffel.
Se precisam de coragem para o dizer, se tremem quando o dizem, se ficam em suspenso à espera do "eu também te amo" que esperam receber de volta a morder as unhas por dentro estão a fazer as coisas como se deve e estão a dizê-lo à pessoa certa.
Usem esta palavra só quando ela tiver impacto e por favor digam-na por completo e nunca um "uhmmm-te muito" como já ouvi.
O amo-te tem de ser uma dor boa, um misto de alegria matinal, orgasmo vespertino e reminiscente de duches nocturnos. Tem de ter impacto ou então passa a ser uma palavra inerte cheia de conveniências e necessidades de dicionário.
Passa a ser uma vírgula.

7 de junho de 2009

Somos o que fomos

É nessas noites importantes que a conversa surge pintalgada de frio, café e cigarros.
A senhora velha, não tão velha assim mas de aspecto velho com a maquilhagem vermelha mal pincelada e a pele demasiado alaranjada para ser colorido solar fala sempre no que foi e onde esteve.
Nessas noites em que não consegue parar o cigarro e prestar atenção aos distintos clientes só o fato impecável e as palavras ausentes de mácula mostram que é, também ela, uma senhora distinta. Deve ter sido em tempos uma mulher atrevida e dona do seu nariz. Com um impertinência e mimo demais que os senhores mais velhos com quem se dava sentiam prazer em alimentar. Esteve em França e na América, trabalhou num sitio onde tinha de tratar os patrões por Messieur e Madame e estudou arte em Itália.
Agora?
Agora é só mais uma senhora velha confiante que o fato e o bâton vermelho exagerado evitem que seja tratada por dona. Uma daquelas senhoras dependentes da bondade de estranhos que emprestem a atenção durante o tempo suficiente a resumir a sua história.
Fala da juventude e do primeiro casamento como se a vida tivesse ficado lá atrás com a impertinência e a leveza de um corpo de textura leitosa. Como se a vida tivesse acabado no divórcio e na primeira ruga.
Eu fico do meu lado a pensar em toda a tristeza silenciosa camuflada de memórias felizes que nos rodeiam e, como a tal pessoa que em terra de cegos tinha olhos, tenho vergonha de ser feliz.

31 de maio de 2009

Obturado

Diz-se da relação entre animais e donos que passado algum tempo se copiam.
O olhar confunde-se e alguns trejeitos de ambos são contagiosos. Eu já vi senhoras a inclinarem um pouco a cabeça para o lado quando pedem alguma coisa ou quando não perceberam algo. O olhar dos pedintes, o cair dos ombros em submissão, é decalcado de um cão que tiveram em pequenos e que era louco por restos de fiambre.
Assim é com as pessoas e pessoas. Pessoas com relacionamentos com pessoas. Amigos, Pais, Amantes tanto faz. Copiamos os jeitos e os ditos das outras pessoas sem saber que o fazemos. Habitualmente copiamos as pessoas a quem reconhecemos maior autoridade ou de quem gostamos mais.
Outras vezes é um assombro. Como matar uma pessoa e ver o olhar dela a picar-nos todas as noites antes de adormecer. Foi um assombro ver-te nas minhas fotos, no olhar ensaiado que eu fiz para outra fotógrafa que não tu. Pose de simpatia, pose de turista flash click.
E quando discuto as pessoas dizem-me
-Não ponhas esse olhar que não é com isso que te perdoamos
como quando eu te dizia
-Não me olhes assim porque não te perdoo
Nas fotografias da praia, da viagem à neve, de casa, a brincar com o cão o teu olhar de carinho e o teu riso de menina largo de luar flash click.
Não cheguei a ver-te chateada comigo por isso nem sei como agir. Faço uma cara neutra enquanto perco a razão e chamo nomes a quem me enerva. Esqueci como se franzem sobrancelhas e nem a perdigotos ao litro ganho respeito.
Podia também viver sem o teu sorriso a olhar para o céu quando o dia está solarengo ou sem a forma como pegavas no guarda-chuva em dias cinzentos.
Cheguei-te a dizer que tens o sorriso mais bonito que já vi?
Usaria eu o adjectivo bonito se tu não dissesses tantas vezes que isto ou aquilo era bonito?
Era capaz de me entender melhor se não usasse o teu sotaque ou se pudesse apontar com o dedo no mesmo ângulo que apontava antes de tu chegares, vires e partires.
Agora uma foto à frente de uma paisagem algumas vezes nossa e eu sozinho, ar contente, sorriso misterioso e olhar entrecortado por pestanas.
A tua leveza envergonhada de mãos juntas à cintura como que a rezar para o chão.
Flash, click.

24 de maio de 2009

Onde os velhos não têm nome

O
-Bom dia
Esperançado que me atira nunca é alegre nem triste. É assim como que uma frase inacabada ou um poema que não rima nem é particularmente bonito. É uma saudação que se esquece rapidamente como uma declaração de amor apontada a giz numa parede no dia anterior à maior chuvada do ano.
O olhar azul enevoado sugere-me um mar de algas brancas. A palavra “cataratas” atira-me para a referência aquática e não encontro melhor metáfora do que as algas que parecem estar a flutuar por cima da retina sem nunca largar a pálpebra como uma película de pele que se agarra a uma rocha e segue e volta sem coragem de se soltar à maré das ondas baixas.
-Estou cansado disto sabe. Quando me dói alguma coisa penso que é desta. Mas nunca é. O médico fica todo sorrisos quando me diz que tenho um coração que faz inveja a muitos jovens. Quem dera que ele parasse.
As costas vergadas dos passos tão lentos apoiados em duas canadianas e os quase noventa anos às sete da manhã. Ninguém devia ter de andar na rua às sete da manhã. Havia de haver um recolher obrigatório e o lixo apanhava-se às nove. Os padeiros abriam às nove e só havia pão às dez. O jornal de primeira edição só manchava os dedos do cliente lá para as onze. E este velho de olhar cinza na cor e na esperança seria proibido de sair para o frio àquela hora. Se adiar o jornal e o pão adio a saída dele.
-Durmo cinco horas por dia. Sempre trabalhei cedo, dava-me o sono tarde. Imagine o que é ter 19 horas para trabalhar. Imagine o que é ter uma casa sem vozes durante 19 horas.
E de facto era uma voz enlameada que surgia como se estivesse atrofiada pelo silêncio e pela solidão e de cada vez que tivesse de falar uma crosta rompesse nas cordas vocais e só mostrasse que afinal o dano não era permanente ao fim de algumas frases manchadas de expectoração.
-A minha mulher morreu cedo. Eu não queria morrer primeiro mas ela também não precisava morrer com 53 anos. Veja lá, enterrei a minha mãe depois da minha mulher.
O que se diz a um cadáver adiado de ombros caídos, um meio apoiado nas canadianas, outro na paciência dos estranhos que ficam, como eu sempre fico, mais silenciosos do que a casa dele?
-A minha mulher nunca engravidou. Vivemos sempre em casa dos meus patrões. Não deixo nada nem tenho ninguém a quem deixar nada.
Apeteceu-me dizer que ele fará falta quando já cá não estiver. Pelo menos eu saberei quando ele deixar de passar à minha porta. Sei também que já falei dele a muita gente que se compadece dos seus ombros caídos e dos passos arrastados de canadianas mesmo sem nunca ter visto o tempo que ele demora a percorrer a rua que o leva, invariavelmente, ao jornal e ao pão fresco às 7 da manhã.
Teria-lhe dito que eu sentirei a falta dele quando o seu coração deixar de alegrar o médico porque quando ia para a escola, há mais de dez anos, quando ainda não me deixavam andar de autocarro, ia pelas escadas a torcer para o encontrarmos, eu e o meu pai, à nossa porta, já de regresso à tal casa vazia a dar os bons dias nos dez segundos apressados que lhe podíamos dispensar. Podia-lhe ter dito que ele me dava força para ir para a escola de manhã porque me sentia envergonhado de ser mais fraco que um senhor de idade indeterminada que demorava dez minutos a fazer a minha rua houvesse chuva houvesse sol.
Eu teria dito essas coisas todas, juro, se ao menos me conseguisse lembrar do nome dele. Vou ter de perguntar a alguém. E enquanto não lhe der um nome ele é esquecível porque também os meus olhos, voz e movimentos haverão de ser toldados pelo tempo e só os nomes ficam. Era uma hipocrisia dizer-lhe que tenho memória dele se não o puder arquivar sobre um nome.
Na despedida
-Vá lá jovem. Se não encontrar emprego vá trabalhar com o seu pai que aquilo é arte que tem sempre cliente. A juventude de hoje em dia é alérgica a trabalhar com as mãos e tem medo de acordar cedo.
Devia ser proibido sair de casa antes das nove.
Devia ser proibido viver numa casa vazia de mulheres.

17 de maio de 2009

Rosa cheiraria a Rosa mesmo que o nome fosse outro

Chego a Allaire e mando-te uma sms:
“Allaire”
Nem espero pela resposta porque sei que ela não vai chegar mas seja como for gosto que saibas por onde ando. Já te mandei sms em Vitré, Bubry e Morbihan.
Há uns meses fui à Austria e tive de te ligar. Achei que ias gostar de saber que tinha passado por uma terra chamada Pyhra. Pareceu-me ser nome que gostarias. Não atendeste… Atendeu o teu marido que me disse, após uma dúzia de mentiras bem colocadas sobre a minha identidade, que tu estavas na maternidade. Dois dias antes tinha nascido o vosso filho.
João.
Assim um nome vulgar e humano. Tinham de me explicar isto…
-João quê?
-João Filipe.
-João Filipe quê?
-João Filipe Sousa Matos. Porque pergunta?
-Nem um nome de local?
-Desculpe?
-Local… Não lhe chamaram João Porto ou João Aveiro ou João São Petersburgo?
-Não. Que coisa estranha. Porque pergunta isso?
Desligo e fico a ferver em como vendemos os sonhos com tanta facilidade desde que tenhamos um novo par de braços que os concretiza.
Debaixo da cama, na gaveta do meio do aparador e nos bolsos de casacos que deixaste no guarda-vestidos os sinais do teu doce fanatismo e das viagens que fizemos na busca do tal nome. E relembro todas as vezes que fizemos amor nos comboios de Espanha, França, Itália, Eslováquia, Eslovénia ou Inglaterra e registávamos nas costas dos bilhetes o nome da estação seguinte.
Lembras-te quando enganamos as regras porque a nossa menina não se podia chamar Nancy?
E quando achavas que estavas com enjoos matinais porque, pelas tuas contas, tinhas engravidado naquele voo Porto – Funchal? Decerto te lembras de me perguntar
-Sobrevoamos as Berlengas ou é só água?
-Não te preocupes. Chamamos-lhe Atlântica e está decidido.
E nunca foi… Nunca estavas grávida. Nem de uma Lublina ou de uma La Rochelle. Uma Geltru ou uma Cádiz.
Abrandamos na euforia, o tempo passava e nem de Braga, Leça, Coimbra, Leiria ou Lisboa engravidaste. Foi no Porto que descobrimos (no Porto nunca fazíamos amor porque havias de ter uma menina e ela não podia ter um nome masculino) que nem em Fátima ou Lourdes poderias engravidar.
Eu não te poderia dar essa alegria por mais que escalássemos a Serra da Estrela ou a Senhora da Graça.
Demoraste só uma semana a mudar de mim. Não me surpreendeu a forma como de repente me tornei descartável. Na torradeira, porque tu sabias que o que mais falta me haveria de fazer eram as tuas torradas, um bilhete escrito à mão sem sinais de mancha de lágrimas, batom ou uma pequena borrifadela de perfume
“Sabes qual é o meu maior sonho. Desculpa, tenho de o seguir.”
Compreendi. Talvez encontrasses um motorista ou piloto de aviões que te levasse àqueles sítios onde tu dizias querer adoptar o nome para que a tua filha (sim... dizias sempre tua; nunca nossa) tivesse sempre um pedaço de terra que fosse dela. Sempre que se perdesse pensava no sitio que lhe deu nome e lá chegaria como um pássaro migratório que tem ninho sempre na mesma chaminé.
Um dia ligaste a perguntar onde eu estava e disseste-me
-O meu sonho de ser mãe sobrepôs-se à teimosia de dar um nome geográfico. Era uma parvoíce. Nós corrermos tantos sítios foi uma parvoíce. Sou tão feliz aqui que percebi a tolice que andei a fazer.
-Aqui é onde?
-Ovar.
-Caramba, não admira que lhe tenhas chamado João Filipe.
-Sentiste falta das minhas torradas?
-Claro que senti. Deixaste os casacos e as luvas. As torradas eram a terceira coisa que eu mais gostava em ti.
No sitio onde estou há um vale. Os vales formam-se onde outrora houve um rio que entretanto se foi. Quer-me parecer que o espaço entre costelas aumentou quando tu te evaporaste. Quando o nosso amor deixou de fluir.
Deixaste cá um vale com o teu nome.

10 de maio de 2009

Amanhã à mesma hora

À janela está o caminho para casa.
As janelas dos autocarros já não abrem. Não conseguimos espetar a cabeça fora da janela tipo gárgulas de Notre Dame e sentir o vento a pentear. (Engraçado como o vento só penteia as crianças… Envelhecemos e o cabelo torna-se antónimo. Despenteia-se e nós enervamo-nos.)
O ar não se renova dentro dos autocarros e, se lá dentro sentimos frescura, tudo foi provocado pelo ar condicionado que dá aquele ar de água parada num copo… É um ar com uma fina película de pó por cima.
Não sabe ao mesmo que da fonte. Não sabe ao mesmo que da janela.
Passar 20 anos numa casa não aborrece porque podemos pintá-la ou enfeitá-la de quadros e vasos luminosos mas não me deixam pintar a casa amarela do fundo da rua, não me deixam cultivar rosas no jardim da rotunda e muito menos me deixarão pendurar passpartouts das minhas viagens nas paredes do autocarro. O caminho que já conta 20 anos angustia na sua inércia como um familiar em coma que não conta histórias repetidas.
Aí vi-te! Como não reparei em ti? Como entrei e não me capturaste logo?
Levantas-te para sair e ainda usas o mesmo perfume. Levantas-te e estás mais alta. Usas outra roupa. Ganhaste algum peso que só te fica bem. Ao telemóvel uma gargalhada de que não me lembrava. A memória é uma folha escrita a lápis.
Faltavam-me 12 paragens (acredita em mim, conheço o trajecto) e saí atrás de ti… Ao vento o cabelo que finalmente deixaste crescer.
Quem te convenceu?
Eu que tantas vezes te disse que ficava melhor a sibilar pelas costas e tu que tantas vezes disseste que gostavas de ver o teu pescoço de perfil. Quem te fez esquecer o pescoço?
Sigo atrás de ti. É claro que te vou agarrar como dantes. Ainda te lembras como te tapava os olhos como se tivesse sido eu e não o cinema a inventar o tapar dos olhos a sussurrar ao ouvido?
E lembras o que dizia todas as vezes que o fazia?
Tu que eras tão atenta mas nunca me vias chegar dizias
-Não usas perfume… Não te sinto chegar.
E eu compensava com o toque que dizias ser frio como uma concha porque estava gelado ao primeiro contacto mas logo aquecia.
-E é bom aquecer-te meu búzio.
Estou mais próximo. O teu cabelo como bandeiras numa cimeira internacional. O teu cheiro a levitar como quando saías do banho sem toalha e ias à cozinha procurar a esfregona. Nunca vi ninguém tão preocupado com a saúde da tijoleira.
Passavas de volta e dizias
-Não te ponhas com ideias.
e eu ficava com as ideias e o aroma. Ficava eu e a casa docemente infectados por ti.
É quando estou à distância do meu antebraço que afinal não és tu. O vento sopra e o cabelo toca-me na cara e é mais leve que o teu. De raspão vejo um pescoço que não tem as tuas veias. De olhos a cair noto que ao ombro faltam alguns ossos que só tu tens.
Ela, seja quem for, olha para trás a acusar-me de uma coisa que não sabe o que é. Jovem, nem precisa ser advogada para saber que não é crime ter saudades nem é crime manter memórias das pessoas. Muito menor crime será ser ridículo. Portanto não me acuse de nada, sim?

Conheço homens que vestiram novas mulheres como as anteriores. Deram-lhes a mesma música a beber, mudaram-lhes a marca do tabaco, ofereceram sapatos com o salto à medida dos olhos da outra. Fazem amor com elas às escuras e enganam a memória da textura com a lembrança de outra pele.
Mas nada transforma mais uma mulher noutra do que oferecer o mesmo perfume que um outro pescoço à mostra espalhou pela casa.

O início

Certa vez li que quem lê blogues acaba por fazer um.

Faz então sentido que quem lê crónicas sinta a necessidade de as escrever!

Já o faço uma vez por semana no blogue Alugo-me para rir - para o qual fui carinhosamente convidado e acolhido - e apanhei o bichinho da obrigação de escrever um texto em dia certo. Dia esse que às vezes acaba por ser incerto...

Este blogue tenta ser então um espaço onde publico crónicas todos os Domingos ao meio-dia. Umas serão verídicas e pessoais... Outras serão totalmente ficcionadas. Sempre que houver imagem de minha autoria que possa relacionar com o texto lá estará uma a ilustrar.

Vão passando cá aos domingos para as novidades e deixem comentários!


O nome do blogue justifica-se pela tradução literal da intraduzível expressão francesa L'esprit de l'escalier.
E o que é isto?
Imaginem que estão numa festa... Uma pessoa diz-vos qualquer coisa que vos ofende. Vocês, pressionados pela necessidade de dar a resposta ideal no mais curto espaço de tempo, dizem uma coisa qualquer sem graça e saem porta fora. Chegam às escadas e BAAAM... Lembram-se da resposta ideal, aquela que deixaria toda a gente de boca aberta com a vossa perspicácia mas aí, quando já vão nas escadas e já toda a gente se riu da vossa patética saída, é tarde demais para voltar atrás.

Isto é o Esprit de l'escalier...


Sejam bem vindos