17 de agosto de 2009

Sangue novo

Faz parte da condição humana necessitar de novidade. Por isso mudamos de casa, carro, destinos de férias, estilo de vestir, música no mp3...
É também por isso que há um especial prazer nas novas pessoas que nos aparecem. Os velhos amigos, por mais que os adoremos, lidam mal com a nossa mudança porque durante anos fomos os mesmos.
O amigalhaço dos jogos de computador ou o amigo feio que ouvia as queixas de corações partidos por tipos giros. Quando damos a volta por cima e nos tornamos nós próprios, por exemplo, em involuntários quebra corações, as pessoas que nos conheciam deixam de nos acompanhar.
Não é que desapareçam mas ficam presos à imagem que durante anos foi a nossa.
É essa a alegria do sangue novo que nos é injectado pelas pessoas que de súbito pedem para entrar na nossa vida.
Essa vontade de aprender sobre nós, sem nenhuma ideia pré-concebida, é lisonjeira e benéfica.
O curioso é que a necessidade de partilhar essa novidade que uma nova pessoa entrou na nossa vida chama pelas pessoas velhas. Só elas têm paciência para ouvir e aconselhar sabiamente.
Muitas vezes enciumadas ou admiradas da pessoa em que nos tornamos.

9 de agosto de 2009

Um dia morro de vez

Esta semana discutia com uma colega de trabalho como acho que a crença na alma indestrutível não passa de medo de morrer. Medo do final mais redutor. De num segundo haver e no outro não.
Ela não concordou... Não só acredita na alma como não vê a morte como o fim. Eu aceitei porque nem ela ia passar a ser do meu clube nem eu ia ser seduzido pelo dela.
De facto penso que a morte é um fim. Como se tivéssemos uma ligação à electricidade e ela deixasse de chegar ao fio. Alguém a dizer
- É geral
em vez de
- Foi só o fusível do corredor
E olho assim para a vida com a certeza que ela acabará e pronto, sem a angústia que, por exemplo, a Amália tinha quando dizia em privado que não percebia a piada de viver se se tinha de morrer.
Eu não quero morrer, note-se, não para já, mas aceito que num dia mais curto do que os outros me vou de vez. Deixo algumas coisas feitas que, como toda a gente, em tantas voltas que o planeta dará se vão apagar de importância, memória e registo.
Quando todos os meus familiares, amigos e amores me acompanharem em morte há aquele pedaço de memória que guardavam de mim que acaba.
E isso não me preocupa nem um bocadinho.
Há aquele triptico de objectivos que alguém disse ser a condição sine qua non para uma existência útil no planeta.
Ter um filho
Plantar uma árvore
Escrever um livro
Ainda não cumpri nenhuma das três portanto morrer agora era um desperdício. Para mim e para o mundo. Mas já sei como é que se fazem filhos e como é divertido ir treinando o lado recreativo da coisa antes que o apelo do lado reprodutivo chegue, ainda não plantei uma árvore mas já ofereci algumas plantas que, por terem sido dadas com carinho, floresceram mesmo depois de terem perdido a ligação à terra.
Livro? Não. Ainda não escrevi um livro. Mas já escrevi algumas cartas em papel e à mão que, todas juntas, chegavam para uma antologia de mim e delas, as que receberam as cartas.
Somos energia e moléculas, peças que agregadas fazem a força que nos move. Ao morrer a energia acaba e as moléculas separam-se.
E o paraíso é o que fizemos da terra enquanto cá andamos, durante o tempo que estivemos a agir sobre a energia e as moléculas dos outros.

2 de agosto de 2009

M de Madrugada

À noite, muito escuro e silencioso, na paragem de autocarro onde me acostumei e desacostumei a apanhar autocarros, um segurança ainda fardado questiona-me
- Que horas são?
e eu surpreendido com a interrupção de um qualquer pensamento lá respondi
- Uma e meia certas.
O segurança sorri
- Dá tempo para ir à praça e voltar no mesmo autocarro
sempre de olhar perdido num sorriso atravessa a estrada e senta-se na paragem onde os autocarros que passam vão para o sentido oposto ao que desejamos. Pensei que fosse brincadeira mas quando o tal autocarro para a praça passou ele entrou. Cerca de quarenta minutos depois o autocarro regressa, agora já na direcção que me interessa.
Na frente, de sorriso largo e a falar sobre qualquer coisa que não percebi com o motorista lá estava o mesmo segurança. Ignorou-me.
São estas personagens que viajam nos autocarros da madrugada. Os solitários agridoce ora sorridentes da viagem ora tristes da chegada.
Há também os casais. Genuínos como não o são os exuberantes casais de jovens das rotas diurnas. Estes casais dos autocarros nocturnos envelheceram juntos como vinho com o carvalho. Apurados a passeios e danças com a mão pousada sobre o ombro ou dada no colo com a calma aparente de um laço de marinheiro. As mãos são tão frágeis como cordas de seda mas o elo inquebrável.
Há a boa gente de trabalho que, por sair aquela hora, só pode ser muito dedicada ao que faz e vai o caminho todo a falar ainda do serviço. Aos grupos de três e quatro lá vão operários de empregos que nem sabemos que existem e que não sabem como deixar o trabalho lá.
Há os tolos que, talvez alguém saiba a resposta do porquê, têm um bom sentido de orientação e nunca se perdem nem quando os gatos ficam pardos. Fazem conversa com todos ou olham desconfiados para ninguém.
A verdade é que há poucos locais mais seguros na noite que um autocarro nocturno e a sua linha. Poucas pessoas me enternecem mais do que os seus passageiros. Cada uma com tantas histórias, um sorriso quente e um olhar desperto a quilómetros do alheamento dos viajantes diurnos.
Os motoristas à noite sorriem e conversam. Param sempre que um passageiro distraído vê o autocarro no que de dia seria tarde demais. Eles sabem do que falo.

26 de julho de 2009

Batalha Naval

Da única vez em que estive internado no Hospital havia a Isabel.
Entrou na minha segunda noite por causa de uma doença qualquer que já não sei qual era. Sempre com um sorriso nos lábios mesmo quando dormia. No dia seguinte continuava o sorriso mas desta vez desperto, fugidio com o meu olhar como se os meus olhos fossem pés que faziam barulhos no chão do bosque e ela uma borboleta ou um colibri.
Começamos a falar através de um oceano de faz-de-conta recriado numa folha de linhas com quadriculas desenhadas à mão. Nós ali presos nas camas numa enfermaria com janelas que davam para gabinetes mas a navegar furiosamente e a trocar tiros a querer afundar porta-aviões e submarinos.
E foi essa marinheira que me mostrou que pronto, era aquilo que eu queria para a vida toda.
À noite uma lição de cumplicidade depois da batalha. Sempre que uma enfermeira passava, com os passos pesados de um soldado, ela que agora era o nosso inimigo, calavamo-nos com um sorriso parvo para depois recomeçar a conversa no ponto onde ficou ou num novo lugar. Ela até fechava os olhos para ser credível. Eu não conseguia. Observava-a como na noite anterior, agora com ainda mais fascínio.
E assim se passaram 3 ou 4 dias, já não sei, entre batalhas no mar e nos puzzles com os apitos da máquina de soro dela que me afligia porque via series de médicos e apitos nunca eram bom agoiro.
Passados anos ainda me lembro dela e como fiquei deprimido e choroso na tarde em que lhe deram alta
- Agora que estavas a ficar melhor é que tens dores?
e eu com vergonha não dizia a verdade e deixava-me chorar enquanto a enfermeira me fazia massagens com uma daquelas pomadas frias ao toque. No dia seguinte saí e nunca mais entrei na enfermaria ou estive internado.
Agora, como nestes últimos anos, tenho por ela o mesmo fascínio reservado que se deve ter com os famosos que admiramos. Uma enorme curiosidade de conversar e saber o que faz mas medo que, ao chegar ao encontro, tudo não passe de uma ilusão e que a imagem que temos da pessoa seja falsa ou só tivesse sido verdadeira naquela altura de eterna novidade.
Sendo assim tenho-a cá dentro como batalhadora furiosa e conversadora curiosa de face luminosa de dia e sorriso lunar à noite. A pequena Isabel que apitava de duas em duas horas e que me fez, pela primeira vez, doer de amor.

19 de julho de 2009

O Cofre

Enternece a forma como as pessoas tentam ler peitos. Assim com um estetoscópio como o fazem os médicos mas com a curiosidade e perícia de um assaltante de cofres à espera do click ou lá qual é o som que os cofres fazem no seu interior para que possam dar uma olhada cá dentro.
É por isso que tantas vezes nos lançamos nos braços de outra pessoa como um deprimido crónico o faz ao psicólogo. É a salvação que vem aí e nós queremos que tudo seja simples e processado. Fácil de ler e resolver. A questão é que o nosso peito usa sempre a blindagem mais forte com fechaduras de combinação e chaves impossíveis de copiar. Quem está de fora, ainda a tentar abrir o nosso cofre, dificilmente acredita que não sabemos onde guardamos a chave. A combinação foi mudada para um código que nunca esqueceríamos mas esquecemos.
Aí entra a análise da retina. Muita gente pode saber a combinação; a chave pode ter sido roubada ou perdida mas os olhos, se forem os olhos certos, abrem o peito sem resistência.
E não abre. A portinha que chega para o coração se expor não abre e aquela pessoa que se pensava ser a salvação não é nada. É mais uma curiosa a olhar para uma porta que, incapaz de lidar com o que encontraria lá dentro, não merece que ela se abra.
Esta semana voltou a mim um forte sentimento de orgulho e felicidade, fruto de umas tantas memórias que por estarem lá muito para trás (tenho de contar anos com dedos das mãos para perceber quanto) até já se vão esquecendo. Memórias de um tempo em que a porta não abriu nem a martelo e durante o qual o conteúdo foi crescendo em brilho em vez de mirrar com a falta de ar.
E noutro dia noutro sítio, com outros olhos a tentarem sem pressa, a porta lá se abriu sem resistência. Lá dentro um coração fresco acabado de colher e espaço suficiente para outro morar confortável.

12 de julho de 2009

A Sílvia, a Diana e a Cláudia

São três mulheres da minha vida e, embora tenha conhecido duas Dianas, uma Sílvia e uma Cláudia, as do título nem sei quem são.
A Sílvia morava perto do centro de saúde mais próximo de minha casa e era familiar de um tipo que tinha um armazém lá perto. A Diana passa todos os dias perto de uma rua de acesso ao centro comercial Parque Nascente. A Cláudia apanhava algumas vezes camionetas e sabia o que Je t'aime quer dizer. Estas três senhoras morreram recentemente.
Não sei se já morreram efectivamente mas, para mim, morreram porque já não estão no pedaço de parede ou chão que as imortalizava. A inscrição "Cláudia Je T'aime" foi pintada por cima quando se fizeram as obras na garagem onde chegam as camionetas vindas de e idas para Lisboa. A inscrição "Diana Adoro-te!" foi obliterada pela passagem dos camiões das obras que rasgarão a linha de metro para Gondomar.
A Sílvia, a mais antiga destas mulheres, vivia numa parede verde em letras amarelas colocadas mesmo por cima da entrada da garagem dos tais armazéns. Encontrou o seu fim depois da venda do edifício a alguém que julga que uma fachada canelada de alumínio é mais bonita que um nome de mulher.
Imagino se quem as matou tentou descobrir quem elas eram para lhes pedir desculpa pela profanação da homenagem e do nome ou se fez como um cirurgião que errou num corte de bisturi e passou o pelouro das desculpas para uma enfermeira imigrante de quem nem sequer sabe o nome.
Que lhe dê o nome de Sílvia, Diana ou Cláudia mesmo que ela discuta que no país dela não existem esses nomes e ao menos que durma por lhes ter dado uma cara.

5 de julho de 2009

1/2

Esta semana, no dia 2 de Julho, passou-se uma data que passa (passando o pleonasmo de tantos passares e passados) ao lado da maioria das pessoas. Este é o centésimo octagésimo terceiro dia do ano. É o meio do ano.
Há para trás cento e oitenta e dois dias e restam outros cento e oitenta e dois para diante. São estas datas que nos obrigam a parar e reflectir sobre o que se passou e quantas das resoluções de ano novo já nos encarregamos de resolver.
A nossa vida, felizmente infelizmente felizmente infelizmente não tem backups como os que fazemos antes de formatar o disco do computador. Fazemos borrada e a nossa vida vai para sítio incerto e não há técnico de informática que nos devolva o que perdemos. Este meu meio ano foi para parte incerta (que é onde está sempre na realidade) no plano afectivo e vai caminhando para a incerteza no plano profissional. Em ambos não sinto a necessidade de backups embora um fiozinho de ligação à terra, a haver, daria uma segurança que conforta.
Grande parte deste meio ano foi passada num leve sofrimento, que não explicarei porque nunca se sofre sozinho, sempre interceptado por momentos de felicidade e sorrisos cumplices que se sobrepunham sempre aos tempos sombrios. Na vida, como nos computadores, um reiniciar ainda resolve muitos problemas e não, não é preciso ser à bruta. Tendo paciência a nossa janela reinicia sem que uma brisa deixe de entrar e a anterior brisa, de aroma diferente, esvoaça para outra janela sem partir os nossos vidros.
Agora vive-se a sorrir, a passear, a comer pêlos de gata e a ressonar (nada que não se resolva com uma cotovelada, mais uma vez, como com os computadores) sem peso nos ombros mas imensa curiosidade assustada de ver se a tempestade deve ser agarrada ou não.
Profissionalmente continuo nesta carreira de cantor de rua figurado. Canto com talento e esforço mas para já nenhum olheiro das editoras se aproximou e como sou orgulhoso, arrogante e sei o que valho o chapéu das esmolas fica na cabeça mesmo que os transeuntes fiquem tontos à procura de onde meter a moedinha como se eu fosse uma máquina de café.
O meu meio ano passou rápido mas deixou marcas lentas, como estrias que ficam depois de uma dieta milagreira. E as estrias, como as rugas, sempre me pareceram mais sinais de coragem e viagem do que imperfeições a combater.
E hoje, até já falta menos de metade para o final do ano.

28 de junho de 2009

Pocahontas

Muito antes de eu saber o que era uma mulher bonita já a mulher mais bonita da praia era aquela. Tinha um olhar tristonho encaixado na cara oval. O cabelo negro descia pelas costas e perdia-se até ao final da coluna acabando mesmo ali, no início da anca que ia sempre tapada com uma saia comprida preta. E tal como no cinema, as mulheres belas de olhos chorosos e cabelos torrenciais têm um passado que não deixa o futuro em paz.
Esta mulher, que pouco tempo depois encontraria na personagem da Disney, Pocahontas caso esta tivesse a pele de uma camponesa nortenha, arrastava sempre à sua frente um homem mais velho. Uma efígie sentada em eterna contemplação como um pensador de Rodin a olhar em frente. A cara esculpida muito mal cicatrizada às mãos do tempo. Esta estátua era o pai da Pocahontas nortenha.
Dizia a lenda local, porque mulheres daquelas precisam de explicação e mesmo que não a haja inventa-se, que naquela família corria uma doença que aos trinta anos tolhia os movimentos e sensações. Era quase como uma maldição bíblica de um Midas que transformava a sua prole em granito. A mãe da Pocahontas tinha partido há muito sem lhe deixar nada a não ser os olhos largos e a anca doce que enchia a saia preta de brilhos de veludo.
Não sei o que a animava. Especialmente quando dava o iogurte às colheres de chá ao pensador havia nela uma graça e ânimo que parecia estar sempre grávida. Parecia que para ela havia esperança a cada colher de chá de iogurte natural como se estivesse a alimentar um filho. Ela, como a mãe do pai. Imaginem a Pocahontas a viver na Ilha de Páscoa e a alimentar uma das austeras estátuas a desejar, porque os olhos grandes têm mais líquido lacrimal e transparecem como lagos, poder tê-la no colo.
Assim era a mulher mais bonita da praia para a qual eu ia.
Há cerca de ano e meio morreu o melhor amigo do meu pai e eu fui ao funeral com o intuito egoísta de observar como o filho do falecido, um ano mais velho que eu, lidava com a perda do pai. Na minha família também há genes raquíticos e há que estar preparado para todas as eventualidades.
Teria a Pocahontas uma bola de cristal na figura granítica do pai? Estaria ela a ver no que se ia tornar?
Teria ela tomado a decisão de não continuar a transmissão do gene granítico acabando assim com a maldição da família?
Ela deixou de ir à praia e ao longo dos anos fui conhecendo mulheres que me mostraram o que eram ancas perigosas, olhos límpidos e cabelos como estradas. E nunca vi essas coisas que as mães deixam às filhas de herança numa jovem a arrastar uma cadeira de rodas com uma cariátide alimentada a iogurte natural numa colher de chá sentada em contemplação, silenciosamente, como uma estátua onde deixar uma rosa todos os dias parece fazer a diferença.

21 de junho de 2009

Blues

Há 3 semanas foi publicado no site Post Secret o segredo de uma pessoa que dizia que sabotava todas as suas relações para ser um melhor músico. Esse site é muito propenso a que nos sintamos identificados com algumas das coisas, algumas delas assombrosas, que por lá se confessam mas nunca nenhuma me tocou tanto como esta. Não no sentido da sabotagem que, pelo menos de forma propositada, não exerço mas sim na medida em que me sinto mais altivo e criativamente fértil quando me sinto miserável.
Uma quantidade enorme de grandes artistas sofreu de doenças crónicas e/ou degenerativas. Pensem na Frida Kahlo e na sua coluna despedaçada ou no Van Gogh e a sua eterna desilusão. Mais ainda pensem em todos aqueles pintores que para atingir a finura ideal do traço afiavam os seus pincéis nos lábios num beijo envenenado de chumbo. Eles iam definhando com queda de cabelo, psicoses, falhas renais e cardíacas, impotência e, em casos extremos, morte. De cada vez que pintavam uma pestana de musa ou um bigode de banqueiro entregavam mais um pouco de si à arte, literalmente.
Nós, como observadores, somos cúmplices involuntários de um suicídio e como nos divertimos à custa desse sofrimento só me ocorre a palavra sadismo para descrever a forma suja mas inocente como beneficiamos do sofrimento dos artistas.
Uma professora de História da Arte disse-nos uma vez que a representação pictórica da melancolia tinha praticamente desaparecido. Na minha opinião isso aconteceu porque o artista queria pintar melancolia e só lhe perguntavam
-Porque é que o senhor da pintura está triste?
e ter de explicar que ele não estava triste mas sim melancólico seria como um comediante explicar a punchline da sua piada.
Será desta falta de pintura que surgiu Antero de Quental?
Eu entendo bem o/a artista que enviou o segredo porque também eu, de forma incrivelmente cíclica, sou um dependente da melancolia. Uma vez disse a uma namorada que depois se tornou numa pouco saudosa ex que por vezes sentia saudades de me sentir melancólico e solitário. Ela, coitada, que nunca entendeu a diferença entre melancolia e tristeza, achou estranho e disse que isso era estúpido. Anos depois descobri a Ana Moura que dizia numa música demasiado recuada do seu CD "Já não temos fome mãe / nem temos também / saudades de a não ter".
Parece-me ser este o caso da melancolia. Do sofrimento nos olhos e ombros nasce nobreza.
E a escrita melhora exponencialmente.

14 de junho de 2009

-te

Conseguimo-nos lembrar de umas 30 palavras sufixadas com -te.
Aposto, mesmo assim, que sei em qual vocês estão a pensar...
Há palavras que se vulgarizam, seja por moda ou simples uso excessivo, palavras que um dia foram inventadas por alguém que deve ter pensado ter finalmente conseguido classificar um sentimento ou emoção e que afinal inventou uma palavra para todos usarmos como roupa interior.
Outras palavras há que temos de proteger e usar com cautela. Usar só em casos especiais e quando nada mais existe. Um pouco como chorar só quando a tristeza não é suportável pelo corpo e lá cai a lágrima.
Assim é com o "amo-te" que se diz por aí. Devia só ser dito quando o batimento do coração chega aquele ponto de quase rotura em que o amo-te seria como o buraco no crânio que alivia a pressão num cérebro inchado. O amo-te era o buraco nas costelas que salvava mas ao mesmo tempo desprotegia o coração. O amo-te devia atingir-nos sempre como um cubo de gelo quente e suave. Devia ser sempre forte e doce e tocante e inesperado.
Devia ser mais vezes dito na escuridão do quarto com a tal pessoa abençoada pelo amor declarado dentro dos braços a apertar o abraço quando ouvia as palavras que só para ela se abrem. Devia ser dito de surpresa a meio de uma balada dançada sem passos combinados ou então a meio de um jantar sem televisão nem luzes nem sumos baratos.
Podem dizê-lo no carro e no trabalho. Podem dizê-lo sentados na retrete ou de mão dada na base da Torre Eiffel.
Se precisam de coragem para o dizer, se tremem quando o dizem, se ficam em suspenso à espera do "eu também te amo" que esperam receber de volta a morder as unhas por dentro estão a fazer as coisas como se deve e estão a dizê-lo à pessoa certa.
Usem esta palavra só quando ela tiver impacto e por favor digam-na por completo e nunca um "uhmmm-te muito" como já ouvi.
O amo-te tem de ser uma dor boa, um misto de alegria matinal, orgasmo vespertino e reminiscente de duches nocturnos. Tem de ter impacto ou então passa a ser uma palavra inerte cheia de conveniências e necessidades de dicionário.
Passa a ser uma vírgula.

7 de junho de 2009

Somos o que fomos

É nessas noites importantes que a conversa surge pintalgada de frio, café e cigarros.
A senhora velha, não tão velha assim mas de aspecto velho com a maquilhagem vermelha mal pincelada e a pele demasiado alaranjada para ser colorido solar fala sempre no que foi e onde esteve.
Nessas noites em que não consegue parar o cigarro e prestar atenção aos distintos clientes só o fato impecável e as palavras ausentes de mácula mostram que é, também ela, uma senhora distinta. Deve ter sido em tempos uma mulher atrevida e dona do seu nariz. Com um impertinência e mimo demais que os senhores mais velhos com quem se dava sentiam prazer em alimentar. Esteve em França e na América, trabalhou num sitio onde tinha de tratar os patrões por Messieur e Madame e estudou arte em Itália.
Agora?
Agora é só mais uma senhora velha confiante que o fato e o bâton vermelho exagerado evitem que seja tratada por dona. Uma daquelas senhoras dependentes da bondade de estranhos que emprestem a atenção durante o tempo suficiente a resumir a sua história.
Fala da juventude e do primeiro casamento como se a vida tivesse ficado lá atrás com a impertinência e a leveza de um corpo de textura leitosa. Como se a vida tivesse acabado no divórcio e na primeira ruga.
Eu fico do meu lado a pensar em toda a tristeza silenciosa camuflada de memórias felizes que nos rodeiam e, como a tal pessoa que em terra de cegos tinha olhos, tenho vergonha de ser feliz.

31 de maio de 2009

Obturado

Diz-se da relação entre animais e donos que passado algum tempo se copiam.
O olhar confunde-se e alguns trejeitos de ambos são contagiosos. Eu já vi senhoras a inclinarem um pouco a cabeça para o lado quando pedem alguma coisa ou quando não perceberam algo. O olhar dos pedintes, o cair dos ombros em submissão, é decalcado de um cão que tiveram em pequenos e que era louco por restos de fiambre.
Assim é com as pessoas e pessoas. Pessoas com relacionamentos com pessoas. Amigos, Pais, Amantes tanto faz. Copiamos os jeitos e os ditos das outras pessoas sem saber que o fazemos. Habitualmente copiamos as pessoas a quem reconhecemos maior autoridade ou de quem gostamos mais.
Outras vezes é um assombro. Como matar uma pessoa e ver o olhar dela a picar-nos todas as noites antes de adormecer. Foi um assombro ver-te nas minhas fotos, no olhar ensaiado que eu fiz para outra fotógrafa que não tu. Pose de simpatia, pose de turista flash click.
E quando discuto as pessoas dizem-me
-Não ponhas esse olhar que não é com isso que te perdoamos
como quando eu te dizia
-Não me olhes assim porque não te perdoo
Nas fotografias da praia, da viagem à neve, de casa, a brincar com o cão o teu olhar de carinho e o teu riso de menina largo de luar flash click.
Não cheguei a ver-te chateada comigo por isso nem sei como agir. Faço uma cara neutra enquanto perco a razão e chamo nomes a quem me enerva. Esqueci como se franzem sobrancelhas e nem a perdigotos ao litro ganho respeito.
Podia também viver sem o teu sorriso a olhar para o céu quando o dia está solarengo ou sem a forma como pegavas no guarda-chuva em dias cinzentos.
Cheguei-te a dizer que tens o sorriso mais bonito que já vi?
Usaria eu o adjectivo bonito se tu não dissesses tantas vezes que isto ou aquilo era bonito?
Era capaz de me entender melhor se não usasse o teu sotaque ou se pudesse apontar com o dedo no mesmo ângulo que apontava antes de tu chegares, vires e partires.
Agora uma foto à frente de uma paisagem algumas vezes nossa e eu sozinho, ar contente, sorriso misterioso e olhar entrecortado por pestanas.
A tua leveza envergonhada de mãos juntas à cintura como que a rezar para o chão.
Flash, click.