27 de setembro de 2009

Olá

Num mundo perfeito (pasmam-me as vezes que começo frases assim) eramos todos familiares ou amigos. Entravamos num café e sentavamos-nos numa mesa a tomar um copo com uma total estranha que, neste mundo perfeito, não era estranha durante muito mais tempo. Ficavamos ali a ouvir as coisas aborrecidas que a tornam uma pessoa interessant. As doenças do pai e da mãe, os amores e desamores, o que faz para ganhar a vida. Se gosta do que faz...
Nesse mundo perfeito um homem poderia ser simpático para uma mulher. Poderia também abordá-la na rua e dizer
- Que belo cabelo tu tens.
sem que a tal moça do belo cabelo achasse que eramos uns pervertidos que na realidade estavamos a elogiar-lhe as mamas. No tal mundo, os autocarros eram reuniões de familia onde todas as pessoas ouviam e falavam como se se conhecessem há anos.
Nesse mundo, em vez de te sentares lá ao fundo do comboio com os teus phones a debitar metal como um repelente de insectos anti-conversa esperavas-me com um sorriso e contavas-me o que ias fazer e o que tinhas feito para continuares a ser a pessoa mais incrivel que conheço. E lá ficaria eu fascinado e apaixonado e ficavamos, talvez, felizes para sempre.
Mas em vez disso vivemos neste mundo fechado em que todos caminhamos como hamsters dentro de uma bola de plástico translúcido. Podemos ver outras pessoas, podemos deseja-las mas estamos proibidos de comunicar e tocar nessas pessoas que têm a sua própria bola protectora.
Num mundo perfeito (cá está, mais uma frase começada assim) todos nos tratavamos por tu e eu já te tinha dito
- Que bela pele tu tens
sem que tu estranhasses a ousadia e interpretasses erradamente o meu fascínio.

20 de setembro de 2009

Lá em casa nada igual

No dia em que nos conhecemos não estava assim quente. Chovia e havia acidentes na rua. Como hoje está calor e o trânsito flui eu nem me lembro que faz hoje três anos que nos conhecemos. Também se torna cada vez mais difícil lembrar como os teus olhos eram amarelos (e tu achavas uma parvoíce não encontrar uma cor melhor para os descrever) ao sol. Um amarelo escuro com rasgos acastanhados e uma mancha verde. Em tempo mais sombrio os teus olhos eram verdes com a mancha azulada. Sim... Cada vez é mais difícil lembrar com exactidão. Lembro que odiava quando dizias asneiras mas também odiava tabaco e adorava a forma como tu fumavas portanto vai-se a ver e até adorava a tua forma de dizer asneiras.
Quase que entra o Outono mas a tal chuva que caía no dia em que nos conhecemos hoje fica lá em cima. Não lá em cima porque lá em cima não há moradias de gotas. Céu limpo e as gotas estão aglomeradas todas, penso eu que bastante apertadas, num campo de refugiados de gotas a norte sul este oeste daqui. Aqui chuva nenhuma. Nem do céu nem minha que agora com as rugas que me rasgam a cara não convém facilitar e deixar que mais água as eroda como uma falésia que dura com a dureza que se dissolve na paciente suavidade da água.
No dia em que nos conhecemos, lembro agora, chegaste a horas e eu a dizer
- Foste pontual
Tu a responder ainda envergonhada
- Eu chego sempre a horas
Agora sei que é mentira. Há mais de ano e meio que marco encontros e tu não apareces. Mando-te mensagens, ligo-te e nem uma resposta que confirme ou desminta que vens. Agora eu aqui agarrado a memórias que já nem sei se lembro bem e a uma ruga no olho esquerdo que juro por mim e por ti que não estava lá antes de teres desaparecido. Naquela manhã em que a cama vazia se transformou numa casa em que ao chegar nem um cheirinho de esparguete, nem um som de televisor, nem nos dias bons um corpo nu à minha espera. Nada. Uns lençois vazios que foram perdendo o teu cheiro tal como a casa foi perdendo o teu cheiro, o teu som, a cor dos teus olhos e a sombra do teu corpo envernizado nos espelhos do corredor. Na cozinha a cafeteira onde ainda faço café à tua maneira mas nunca sai à tua maneira.
Hoje não chove como chovia e os carros não batem. Os condutores não discutem. Que desculpa tens para demorar tanto a vir num dia de sol assim e no qual até podias dizer
- Foda-se vou fumar um cigarro
que eu ficava aqui fulminado de devoção a observar enquanto me aliviavas a ruga do olho esquerdo?

13 de setembro de 2009

A face que enviou mil navios

Certa noite sonhei que ela adormecia ao meu lado, no carro, numa qualquer viagem. Por intermédio das curvas ou necessidades de conforto toda a face dela estava virada para o exterior, no sonho dela, a ver fosse o que fosse.
Um sonho dela dentro do meu sonho.
Iamos a caminho de qualquer sítio feliz, disso tenho a certeza. Embora não saiba quem ela era sei que no sonho era a minha mulher, casados ou não nem interessa, ela minha mulher e eu homem dela, assim com posse e segurança e submissão insegura. Durante todo o sonho, que nunca deixou de ser um sonho, eu só lhe via a parte de trás da orelha, o cabelo no ombro adormecido como ela e o pescoço relaxado. Tudo do lado esquerdo.
Não a tentei virar, não tentei ver quem ela era. A paz raramente necessita de feições.
Passei anos a pensar nesse sonho, associei-o à magia das viagens com os meus pais e ao enorme desejo que tinha de conduzir e amar. Conduzir carros amar mulheres. Por esta ordem.
Um dia, enquanto conduzia uma delas no regresso a casa, uma pergunta não regressou com resposta. Ficou ali suspensa entre o barulho do motor e o ritmo suave da música. Pensei em dezenas de razões para ela não me ter respondido. Conduzi quilómetros até que me ocorreu questionar se ela tinha ouvido. Ainda por cima era uma pergunta banal e sem gravidade. Não havia razão para não me responder.
Ao olhar na direcção dela. A resposta.
Ela dormia. Um sono leve, interrompível com o mínimo solavanco. Ao contrário da mulher do sonho eu via-lhe a cara e fiz questão de lhe dizer, quando chegamos e ela acordou com a quietude do carro (bela estranheza esta de termos medo de acordar alguém com um solavanco mas conseguir que ela desperte ao ausentar os movimentos), que ar engraçado ela tem quando dorme. Perder o sorriso e ficar séria não é nada o estilo dela. Ao dormir, as suas bochechas caem como se o sorriso dela fosse a gravidade zero de toda a face, anulada pelo adormecer do resto do corpo.
Ela sorri. Beija-me.
E eu lá sem inspeccionar a orelha ou o cabelo rabiscado pelo ombro que tapa o pescoço que fica também por comparar. Eu só a inspeccionar o olhar dela e as bochechas, já na lua ou submersas com o sorriso que ela abre, a elevar toda a cara. Cara que, na do sonho, nem conhecia.
A paz às vezes tem face e não há sonho mais pacífico que aquele.

6 de setembro de 2009

Tenho-te

Os ingleses têm uma expressão que explica bem o sentimento de vigília por alguém.
"I got you"
Somos responsáveis pelas pessoas que fazem parte da nossa vida, quer nos devam alguma coisa ou não. Quando se diz
- Fico-te a dever uma
nem sempre se contrai uma dívida. Muitas vezes é só o peso mental ou talvez moral de ter um vinculo entre duas pessoas. E duas pessoas ligarem-se, num mundo tão grande e populoso, não pode ser vulgarizado.
No Principezinho a raposa ensina ao pequeno protagonista o que é cativar e a responsabilidade para a vida inteira que temos pelas pessoas que cativamos. Assim como se fosse (e é) uma das coisas básicas que todas as crianças têm de aprender antes de crescer.
Costumo avisar, numa despedida, que comigo as pessoas não têm nada que agradecer e dispõem sempre. Uns agradecem-me a achar que estou a dizer aquilo por conveniência, outros, os que me conhecem não agradecem, piscam o olho ou sorriem como que a dizer
- Eu sei.
É bom tomar conta de vós...

30 de agosto de 2009

Azul

Obviamente que te procurei. No dia em que pensei escrever isto, no dia em que comecei a escrever, no dia em que rasguei a folha, nos três dias seguintes e também hoje, o dia em que finalmente reescrevo tudo.
Sim, procurei-te. Por baixo das mesas a ver se os sapatos verde sapo estavam cruzados. Procurei também por cima das divisórias das mesas na esperança que de lá emergisse a tua profunda e agitada cabeleira castanha, interrompida de madeixas azuis e daquela borboleta vítrea com que apanhas o cabelo. Andei a cheirar o ar de olhos fechados a ver, perdão, a sentir se apanhava o rasto daquele aroma que só tu tens e que enche onde tu estás.
E nada. Nem tu, nem sapatos, nem borboletas, nem perfume. Tu foste e eu aqui, ridículo e perdido. Eu que sempre disse
- Olha que eu não sou como os outros homens
e afinal sou. Ridículo e perdido e desesperado por teres partido do nosso local e não estares em nenhum dos meus ou teus.
E não era que as sombras não respondessem às ordens da tua anca nua ou tapada com aquele vestido azul caneta bic que ia tão bem com os teus joelhos. A luz a enevoar-se vergada nas curvaturas do teu doce planeta. Aqui rosado pele ou azul caneta bic, ali cinza sombreado.
Também não era que a tua voz não me agradasse, nem o teu olhar vítreo como a borboleta, se a borboleta fosse azul como é o teu olhar, me desagradou alguma vez.
Sei lá o que era que me fazia dizer
- Olha que eu não sou como os outros homens
quando não tinha mais argumentos.
No dia em que foste, com os teus joelhos, ombros e sapatos verde sapo no meio de mais uma discussão, a única que não acabou em perfumes misturados na cama ou sofá e vestido azul caneta bic no chão perguntaste-me, com calma mas sem tempo a perder
- Está bem, já percebi que não és como os outros homens. Mas afinal és melhor ou pior?
eu de boca aberta em pasmo. Sempre me bastou, contigo e com as outras antes de ti, dizer que era diferente dos outros e pronto. Vocês agradecidas por eu fazer esse favor de ser vosso e a conversa acabava ali e recomeçava numa outra direcção.
Fiquei sem responder e tu ficaste sem ficar e foste para um sítio que não é este nem nenhum dos outros por onde já passei à tua procura. Em casa ainda está o vestido azul caneta bic arrumado no teu lado do armário e o perfume meio gasto no teu lado da cómoda no caso de regressares e quereres deitar o vestido ao chão e misturar os nossos perfumes na cama ou no sofá só mais uma vez.
Não sabias dizer, antes que me faltasses tanto, que não eras uma mulher igual às outras?

23 de agosto de 2009

Asas

Há um momento antes da partida em que não somos nós. Somos outro qualquer sem história ou herança. Somos uma tábua rasa como um bebé acabado de nascer.
Depois um tiro ou uma voz
- Vai!
e voltamos a ser o que somos. O treino que nos levou até ali. A dor sem a qual não chega o ganho. A história do esforço e a herança de um corpo bom.
O medo que o corpo rompa.
E é rápido, muito rápido, que nos movemos, um grande passo de cada vez de forma que correr já não é equivalente a andar rápido mas sim a voar raso. Um toque esguio de cada vez como uma garça ou cegonha em descolagem de um lago. As vozes na cabeça
- Dói-me a coxa
ou
- Da última vez ia mais equilibrado
ou
- Já perdi tudo só na partida
o descrédito e o joelho que só com injecções curou a última das tentativas de bater o recorde. O pé que tocou no chão mais do que devia.
A voz do primeiro treinador
- O pé não toca no chão. Só os dedos. Só os dedos!
Não há gravidade alguma. Não há piscina que transmita tanta leveza como correr. Correr com o corpo todo. Levantar as pernas o mais possível e castigar o chão por nos querer prender. Empurrar os braços como um boxeur para a frente e para cima a cortar o ar. A cara deformada do esforço e da deslocação da massa corporal. O coração que quer correr mais que nós.
Não sei como é com os pássaros mas com o Homem são as pernas que lhe dão asas.

17 de agosto de 2009

Sangue novo

Faz parte da condição humana necessitar de novidade. Por isso mudamos de casa, carro, destinos de férias, estilo de vestir, música no mp3...
É também por isso que há um especial prazer nas novas pessoas que nos aparecem. Os velhos amigos, por mais que os adoremos, lidam mal com a nossa mudança porque durante anos fomos os mesmos.
O amigalhaço dos jogos de computador ou o amigo feio que ouvia as queixas de corações partidos por tipos giros. Quando damos a volta por cima e nos tornamos nós próprios, por exemplo, em involuntários quebra corações, as pessoas que nos conheciam deixam de nos acompanhar.
Não é que desapareçam mas ficam presos à imagem que durante anos foi a nossa.
É essa a alegria do sangue novo que nos é injectado pelas pessoas que de súbito pedem para entrar na nossa vida.
Essa vontade de aprender sobre nós, sem nenhuma ideia pré-concebida, é lisonjeira e benéfica.
O curioso é que a necessidade de partilhar essa novidade que uma nova pessoa entrou na nossa vida chama pelas pessoas velhas. Só elas têm paciência para ouvir e aconselhar sabiamente.
Muitas vezes enciumadas ou admiradas da pessoa em que nos tornamos.

9 de agosto de 2009

Um dia morro de vez

Esta semana discutia com uma colega de trabalho como acho que a crença na alma indestrutível não passa de medo de morrer. Medo do final mais redutor. De num segundo haver e no outro não.
Ela não concordou... Não só acredita na alma como não vê a morte como o fim. Eu aceitei porque nem ela ia passar a ser do meu clube nem eu ia ser seduzido pelo dela.
De facto penso que a morte é um fim. Como se tivéssemos uma ligação à electricidade e ela deixasse de chegar ao fio. Alguém a dizer
- É geral
em vez de
- Foi só o fusível do corredor
E olho assim para a vida com a certeza que ela acabará e pronto, sem a angústia que, por exemplo, a Amália tinha quando dizia em privado que não percebia a piada de viver se se tinha de morrer.
Eu não quero morrer, note-se, não para já, mas aceito que num dia mais curto do que os outros me vou de vez. Deixo algumas coisas feitas que, como toda a gente, em tantas voltas que o planeta dará se vão apagar de importância, memória e registo.
Quando todos os meus familiares, amigos e amores me acompanharem em morte há aquele pedaço de memória que guardavam de mim que acaba.
E isso não me preocupa nem um bocadinho.
Há aquele triptico de objectivos que alguém disse ser a condição sine qua non para uma existência útil no planeta.
Ter um filho
Plantar uma árvore
Escrever um livro
Ainda não cumpri nenhuma das três portanto morrer agora era um desperdício. Para mim e para o mundo. Mas já sei como é que se fazem filhos e como é divertido ir treinando o lado recreativo da coisa antes que o apelo do lado reprodutivo chegue, ainda não plantei uma árvore mas já ofereci algumas plantas que, por terem sido dadas com carinho, floresceram mesmo depois de terem perdido a ligação à terra.
Livro? Não. Ainda não escrevi um livro. Mas já escrevi algumas cartas em papel e à mão que, todas juntas, chegavam para uma antologia de mim e delas, as que receberam as cartas.
Somos energia e moléculas, peças que agregadas fazem a força que nos move. Ao morrer a energia acaba e as moléculas separam-se.
E o paraíso é o que fizemos da terra enquanto cá andamos, durante o tempo que estivemos a agir sobre a energia e as moléculas dos outros.

2 de agosto de 2009

M de Madrugada

À noite, muito escuro e silencioso, na paragem de autocarro onde me acostumei e desacostumei a apanhar autocarros, um segurança ainda fardado questiona-me
- Que horas são?
e eu surpreendido com a interrupção de um qualquer pensamento lá respondi
- Uma e meia certas.
O segurança sorri
- Dá tempo para ir à praça e voltar no mesmo autocarro
sempre de olhar perdido num sorriso atravessa a estrada e senta-se na paragem onde os autocarros que passam vão para o sentido oposto ao que desejamos. Pensei que fosse brincadeira mas quando o tal autocarro para a praça passou ele entrou. Cerca de quarenta minutos depois o autocarro regressa, agora já na direcção que me interessa.
Na frente, de sorriso largo e a falar sobre qualquer coisa que não percebi com o motorista lá estava o mesmo segurança. Ignorou-me.
São estas personagens que viajam nos autocarros da madrugada. Os solitários agridoce ora sorridentes da viagem ora tristes da chegada.
Há também os casais. Genuínos como não o são os exuberantes casais de jovens das rotas diurnas. Estes casais dos autocarros nocturnos envelheceram juntos como vinho com o carvalho. Apurados a passeios e danças com a mão pousada sobre o ombro ou dada no colo com a calma aparente de um laço de marinheiro. As mãos são tão frágeis como cordas de seda mas o elo inquebrável.
Há a boa gente de trabalho que, por sair aquela hora, só pode ser muito dedicada ao que faz e vai o caminho todo a falar ainda do serviço. Aos grupos de três e quatro lá vão operários de empregos que nem sabemos que existem e que não sabem como deixar o trabalho lá.
Há os tolos que, talvez alguém saiba a resposta do porquê, têm um bom sentido de orientação e nunca se perdem nem quando os gatos ficam pardos. Fazem conversa com todos ou olham desconfiados para ninguém.
A verdade é que há poucos locais mais seguros na noite que um autocarro nocturno e a sua linha. Poucas pessoas me enternecem mais do que os seus passageiros. Cada uma com tantas histórias, um sorriso quente e um olhar desperto a quilómetros do alheamento dos viajantes diurnos.
Os motoristas à noite sorriem e conversam. Param sempre que um passageiro distraído vê o autocarro no que de dia seria tarde demais. Eles sabem do que falo.

26 de julho de 2009

Batalha Naval

Da única vez em que estive internado no Hospital havia a Isabel.
Entrou na minha segunda noite por causa de uma doença qualquer que já não sei qual era. Sempre com um sorriso nos lábios mesmo quando dormia. No dia seguinte continuava o sorriso mas desta vez desperto, fugidio com o meu olhar como se os meus olhos fossem pés que faziam barulhos no chão do bosque e ela uma borboleta ou um colibri.
Começamos a falar através de um oceano de faz-de-conta recriado numa folha de linhas com quadriculas desenhadas à mão. Nós ali presos nas camas numa enfermaria com janelas que davam para gabinetes mas a navegar furiosamente e a trocar tiros a querer afundar porta-aviões e submarinos.
E foi essa marinheira que me mostrou que pronto, era aquilo que eu queria para a vida toda.
À noite uma lição de cumplicidade depois da batalha. Sempre que uma enfermeira passava, com os passos pesados de um soldado, ela que agora era o nosso inimigo, calavamo-nos com um sorriso parvo para depois recomeçar a conversa no ponto onde ficou ou num novo lugar. Ela até fechava os olhos para ser credível. Eu não conseguia. Observava-a como na noite anterior, agora com ainda mais fascínio.
E assim se passaram 3 ou 4 dias, já não sei, entre batalhas no mar e nos puzzles com os apitos da máquina de soro dela que me afligia porque via series de médicos e apitos nunca eram bom agoiro.
Passados anos ainda me lembro dela e como fiquei deprimido e choroso na tarde em que lhe deram alta
- Agora que estavas a ficar melhor é que tens dores?
e eu com vergonha não dizia a verdade e deixava-me chorar enquanto a enfermeira me fazia massagens com uma daquelas pomadas frias ao toque. No dia seguinte saí e nunca mais entrei na enfermaria ou estive internado.
Agora, como nestes últimos anos, tenho por ela o mesmo fascínio reservado que se deve ter com os famosos que admiramos. Uma enorme curiosidade de conversar e saber o que faz mas medo que, ao chegar ao encontro, tudo não passe de uma ilusão e que a imagem que temos da pessoa seja falsa ou só tivesse sido verdadeira naquela altura de eterna novidade.
Sendo assim tenho-a cá dentro como batalhadora furiosa e conversadora curiosa de face luminosa de dia e sorriso lunar à noite. A pequena Isabel que apitava de duas em duas horas e que me fez, pela primeira vez, doer de amor.

19 de julho de 2009

O Cofre

Enternece a forma como as pessoas tentam ler peitos. Assim com um estetoscópio como o fazem os médicos mas com a curiosidade e perícia de um assaltante de cofres à espera do click ou lá qual é o som que os cofres fazem no seu interior para que possam dar uma olhada cá dentro.
É por isso que tantas vezes nos lançamos nos braços de outra pessoa como um deprimido crónico o faz ao psicólogo. É a salvação que vem aí e nós queremos que tudo seja simples e processado. Fácil de ler e resolver. A questão é que o nosso peito usa sempre a blindagem mais forte com fechaduras de combinação e chaves impossíveis de copiar. Quem está de fora, ainda a tentar abrir o nosso cofre, dificilmente acredita que não sabemos onde guardamos a chave. A combinação foi mudada para um código que nunca esqueceríamos mas esquecemos.
Aí entra a análise da retina. Muita gente pode saber a combinação; a chave pode ter sido roubada ou perdida mas os olhos, se forem os olhos certos, abrem o peito sem resistência.
E não abre. A portinha que chega para o coração se expor não abre e aquela pessoa que se pensava ser a salvação não é nada. É mais uma curiosa a olhar para uma porta que, incapaz de lidar com o que encontraria lá dentro, não merece que ela se abra.
Esta semana voltou a mim um forte sentimento de orgulho e felicidade, fruto de umas tantas memórias que por estarem lá muito para trás (tenho de contar anos com dedos das mãos para perceber quanto) até já se vão esquecendo. Memórias de um tempo em que a porta não abriu nem a martelo e durante o qual o conteúdo foi crescendo em brilho em vez de mirrar com a falta de ar.
E noutro dia noutro sítio, com outros olhos a tentarem sem pressa, a porta lá se abriu sem resistência. Lá dentro um coração fresco acabado de colher e espaço suficiente para outro morar confortável.

12 de julho de 2009

A Sílvia, a Diana e a Cláudia

São três mulheres da minha vida e, embora tenha conhecido duas Dianas, uma Sílvia e uma Cláudia, as do título nem sei quem são.
A Sílvia morava perto do centro de saúde mais próximo de minha casa e era familiar de um tipo que tinha um armazém lá perto. A Diana passa todos os dias perto de uma rua de acesso ao centro comercial Parque Nascente. A Cláudia apanhava algumas vezes camionetas e sabia o que Je t'aime quer dizer. Estas três senhoras morreram recentemente.
Não sei se já morreram efectivamente mas, para mim, morreram porque já não estão no pedaço de parede ou chão que as imortalizava. A inscrição "Cláudia Je T'aime" foi pintada por cima quando se fizeram as obras na garagem onde chegam as camionetas vindas de e idas para Lisboa. A inscrição "Diana Adoro-te!" foi obliterada pela passagem dos camiões das obras que rasgarão a linha de metro para Gondomar.
A Sílvia, a mais antiga destas mulheres, vivia numa parede verde em letras amarelas colocadas mesmo por cima da entrada da garagem dos tais armazéns. Encontrou o seu fim depois da venda do edifício a alguém que julga que uma fachada canelada de alumínio é mais bonita que um nome de mulher.
Imagino se quem as matou tentou descobrir quem elas eram para lhes pedir desculpa pela profanação da homenagem e do nome ou se fez como um cirurgião que errou num corte de bisturi e passou o pelouro das desculpas para uma enfermeira imigrante de quem nem sequer sabe o nome.
Que lhe dê o nome de Sílvia, Diana ou Cláudia mesmo que ela discuta que no país dela não existem esses nomes e ao menos que durma por lhes ter dado uma cara.