8 de novembro de 2009

Goma

No dia seguinte a estar contigo não sinto a tua falta. Lembro-me de ti só raríssimas vezes e mesmo nessas vens-me à memória porque aquela cicatriz que me fizeste no lábio ainda cá está. Aquela que causamos por estar a brincar com uma goma, tu a morder um lado e eu outro, achaste que a partilha do urso, garrafa ou ovo estrelado -já não me lembro- não era justa e resolveste reclamar mais um pedaço. E nesse dia que me mordeste sangrei a rir sem imaginar que me ias tirar pedaços cada vez maiores de doçura até chegar ao azedume que acabou connosco.
Mas pronto, como estava a dizer, nesses dias seguintes a te ver, mesmo naquela nesga de tempo ao saíres para o café que bebes todos os dias às 17:15 e durante todo o caminho te observo enquanto dói cá dentro a vontade de te acompanhar. Mesmo nessa altura, não sinto a tua falta.
Mas por vezes passam mais dias e aí dou por mim a falar de ti a todos. Como se fosses um filme que ninguém podia perder ou uma música que todos têm de ouvir com urgência. Como se alguém partilhasse da minha paixão inexplicável. Um hobby exclusivo intransmissível.
O que não te disse quando te liguei foi que soube que estava a perder as estribeiras quando te vi numa fatia de fiambre. Fazia já 5 dias que não via os teus passos pequenos e cautelosos a calcar a calçada nesses saltinhos cómicos que dás quando usas saltos. Sabes as pessoas que vêem santos nas sombras e nas manchas de humidade? Lembras-te como tinhas um nome caro para essas coisas que queremos tanto ver que vemos mesmo numa coisa totalmente diferente? Pois isso aconteceu-me contigo e fiambre. Imagina o ridículo.
E eu a olhar para a sande, que como sempre às 17 e a pensar que pronto.
Vá. Já chega.
Quando te liguei só te disse
- Quero que saibas que vou mudar de emprego. Apareceu uma oportunidade e vou agarrá-la. Só tu me mantinhas aqui e pronto. Passou sabes... Se precisares de mim diz mas eu já não preciso de ti.
e tu, numa confusão de criança abandonada por um animal doméstico que julgamos vinculado por uma trela emocional que previne fugas
- Tem calma. Vais para onde? Eu ia-te ligar para irmos jantar. Resumir as coisas. Sei lá... ver se podíamos reatar o que ficou por resolver (sempre foste tão dramática a falar)
- Minha goma. Vai tudo ficar bem. Faltam-te 10 minutos para o café das dezassete e quinze. A única diferença é não teres ninguém a ver-te da janela. Atravessa sempre na passadeira e tem cuidado porque já não tomo conta de ti. Mas acredita. Se eu estou bem tu também vais ficar.
Choras e não entendo o que dizes. Quem chora tem menos doçura e talvez por isso tanta dificuldade tive, após ter chegado ao destino, a encontrar o local certo da minha cicatriz. Ao sorrir a cicatriz desaparece e a doçura volta.
Logo a mim, que antes de vir embora me precavi com um quilo de doçarias sortidas para as quais agora não tenho destino nem necessidade.

1 de novembro de 2009

Três em cinco

Futebol. Em campo quatro cheerleaders, nos momentos que antecedem o jogo esperado, a fazer publicidade a uma marca qualquer. Urros e assobios. Sintomas da finda tradição masculina do futebol, um rasgo de liberdade num local que, felizmente, se democratizou e embelezou com aquelas que dantes ficavam em casa ou no carro a tricotar.
Ao meu lado um senhor mais velho, companheiro de lugar já há uns anos e de quem, ainda assim, nada sei além do nome, que gosta de casacos de couro e aperta com força a mão ao chegar, exclama desalentado
- Só uma delas vale mais do que nós todos juntos
isto dito de forma triste como se de repente descobrisse que estava orfão, tinha falido e a mulher o tinha deixado por isso mesmo.
Eu a pensar na tal fatal frase, porque temos de ser humildes perante pessoas mais velhas, e em que medida ela se aplicaria a mim e à minha experiência de pessoa com idade para ser filho dele.
Descubro que a estatística e a memória não me deixam ficar mal. Três em cinco é a conta. Das cinco mulheres que conheci, três não merecia e, lá está, fiquei orfão, fali e elas perceberam que temos sempre de procurar pessoas que não merecemos e que nos melhorem por comparação e aprendizagem.
Com a primeira aprendi quantos centímetros de pele escondidos as mulheres têm ao tomar banho (não lhe merecia o corpo), com a segunda aprendi que também o cabelo é erógeno e ainda que os olhos podem chorar ao fim de um beijo (não lhe merecia a leveza) e com a terceira aprendi o segredo -que não partilho- da escolha das maçãs verdes mais doces, da importância dos abraços como expressão pura de carinho e amor e ainda como é possível sorrir com o olhar mesmo tendo os olhos fechados (a esta não lhe merecia o corpo, nem a leveza, nem a magia).
Assim vai sendo o tempo, no estádio exultaram mais algum tempo com o corpo das dançarinas que não merecemos enquanto na minha cabeça ainda exultava em solidão, com a memória dos banhos aromáticos, das danças de cabelos embrenhados e dos abraços de corpo inteiro a sorrir de olhos fechados. Assim vai a luta pelo merecimento.

25 de outubro de 2009

Naturalmente

As coisas que fazemos bem sabemos como as fazer sem olhar. Fazemos-las até mesmo sem pensar nisso. Não pensamos em respirar, deixar bater o coração ou até em andar. Queremos que algo aconteça e ele aparece feito.
Pergunta a um pianista ou guitarrista se pensam que têm de atingir a nota tal que está na pauta para o fazer acontecer. Eles dirão que não, no início talvez mas agora já é automático e fácil. Tal como respirar.
Para mim é automático encontrar as teclas correctas do computador e conduzir. Essas coisas acontecem dentro daquela zona do meu cérebro que guarda as tarefas repetitivas e que vão sendo refinadas. Claro que também automático em mim é amar-te.
Acontece porque sim e sem pensar. Sem sequer pensar para onde direccionar o coração ele virou-se sozinho para o teu sentido e por lá segue, sem se arrepender da estrada percorrida e sem sequer consultar mapas, placas ou GPS's.
E como é automático, como é tão meu como respirar, sou muito bom nisso. Sei como te tratar e o que fazer para sorrires. Com naturalidade, como se viesses com livro de instruções e seguisse sempre o capítulo mágico que aborda o que fazer quando tudo o resto falha. Aquelas soluções incríveis que tudo resolvem. Que tornam tudo estupidamente fácil e que põem o resto dos mortais a perguntar
- Como fizeste isso?
e eu a sorrir com a naturalidade com que negoceio o difícil estacionamento na tua rua.
Toco-te como nas teclas do computador e guio-te como nas estradas à noite e à chuva. Respiro-te.
Amo-te.

18 de outubro de 2009

A quem tudo se perdoa

Há pouco tempo, em discussão salutar com uma amiga, dizia-lhe que se Deus existe como bóia de salvação da gente desesperada (e ainda ontem foi dia mundial da depressão) também acreditava em Deus porque assim é uma ideia auxiliadora e não uma entidade salvadora. Ideia essa de que não preciso mas à qual reconheço utilidade.
Se há na terra mostras de divindade será naqueles objectos ou pessoas que nos causam o Stendhal Effect. Este efeito foi relatado pelo escritor francês Stendhal aquando da sua visita a Florença e durante a qual o mesmo sentiu aceleração do batimento cardíaco, tonturas e até alucinações quando estava perante uma peça de arte de excepcional beleza ou uma grande quantidade de obras num só local. Desde o início do século XIX, quando em 1817 a descrição apareceu num livro de Stendhal, até aos finais do século XX (em 1982 foi reportado o primeiro caso oficial) milhares de casos surgiram. Entretanto também Paris foi associada a este fenómeno por causar os mesmos sintomas no Louvre e nos monumentos emblemáticos.
É aqui que vejo o paralelo com aparições religiosas.
Alucinações relacionadas com um sentimento que não compreendemos de onde vem, geralmente provocado por uma peça de arte que não sabemos descrever são o de mais religioso podemos experienciar. É fé que vem de dentro.
E a gente é mastigada pelos deuses e vigarizada por falsos profetas e mesmo assim continua a construir-lhes obeliscos e menires de formas e valências diferentes. Mesmo assim perdoa as falhas justificando com as suas próprias que supostamente justificam o castigo deles. Aos deuses tudo se perdoa.
De volta aos artistas, os meus únicos deuses porque já Nietzsche dizia só conceber acreditar num Deus que dançasse, são eles que movimentam paixões e fanatismos semi-religiosos. Só eles têm a capacidade de nos deixar ficar mal e/ou cair em desgraça e nós ali a perdoar e acreditar. A defender perante quem ataca a legitimidade da devoção.
Também os artistas parecem ter características mártires de cristos. Penso de imediato em Maradona, Chet Baker, Elis Regina e uns tantos pintores envenenados pelo chumbo das tintas dos pincéis que afiavam com os lábios. Gente danificada pela sua arte e que agora serve de estudo de caso para que os artistas actuais, coitados, não danificados pela arte mas pela sua asfixiante falta de talento, justifiquem as depressõezinhas e demais doidois mentais.
No filme "Maradona by Kusturica" o Deus dos relvados questiona para o ar o que teria sido dele não tivesse havido a cocaína.
Eu respondo.
Teria sido o mesmo. Mas acrescia ao conhecimento mundial informal de ter sido o melhor jogador de todos os tempos o reconhecimento formal das instituições em vez do simpático e bem comportado Pelé.
E um Deus é isto. Falha por sistema mas é adorado e ouvido com atenção. Um magnetismo que move tantas montanhas como milhares de pessoas de joelhos numa catedral. Como traças a ver a luz lá vamos nós embater com o nariz no vidro.
Esta semana Maradona disse relativamente aos seus críticos, pedindo desculpa às senhoras presentes na sala, que "a" chupem e que "a" sigam chupando.
Aos Deuses tudo se perdoa.

11 de outubro de 2009

O Mecânico Constante

Os tradutores enganam-se muitas vezes. Coitados. Tenho genuína estima e pena por eles que andam consumidos de lado para lado a ganhar úlceras nervosas e hérnias de esforço à procura de tradução para uma frase que em inglês soa tão bem mas em português não sabe a nada.
Assim aconteceu com o filme The Constant Gardener traduzido para português como O Fiel Jardineiro. A confusão foi que o tradutor viu o filme e achou que o leitmotiv (olha cá está uma palavra intraduzível) era a fidelidade de um homem em ir até ao fundo de uma questão pela honra da memória da sua amada. Confusão normal e compreensível mas, na minha humilde opinião, errada.
O elemento central do filme é o fascínio e devoção masculina pela manutenção. A forma como este "jardineiro" paciente se rodeia das suas plantas e trata delas tem tanto de devotamente religioso como uma peregrinação.
Qualquer homem poderá testemunhar da alegria que é tomar conta das suas coisas. Há quase tanto prazer no mudar o óleo do motor ou as pastilhas de travão de um carro como conduzi-lo. Só dessa forma sabemos que não andamos a ser enganados por um placebo que alguém disfarçou e nos impingiu.
Somos assim nós homens quando as nossas ninfas privadas surgem depois do banho, ainda dentro de toalhas do tamanho de casulos gigantescos, e nos pedem que espalhemos um creme hidratante ou façamos uma massagem naquele sítio qualquer que doi. Há muito de egoísta nisto porque não só estamos a cuidar do que amamos usufruir como usufruimos durante o cuidado. Nós que tantas vezes temos vontade de parar enquanto as amamos só para ver, assim um intervalo contemplativo para absorver a beleza inatingível de cada suavidade feminina, e não podemos, com medo de sermos ridículos ao ponto de mais tarde entre as amigas haver o desabafo dessa coisa estranha que fizemos numa noite que foi parar a contemplar a estátua viva que ali amávamos.
Ainda no Fiel Jardineiro há o agradecimento da personagem masculina à feminina pela maravilhosa dádiva de esta ter feito amor com ele. Raios, nós somos tão ridículos...

4 de outubro de 2009

Faz-me lá a vontade

Não te preocupes com a água salgada das lágrimas amor. Não vai ser a falta delas que te vai fazer desidratar nem o sal enlouquecer. Deixa-as cair e não as limpes; hidratam o rosto e dão-lhe um brilho fugaz como a luz do luar sobre uma janela. Se quiseres bebe-as, tal como te disse não te enlouquecem como aos náufragos que por cada golada de água do mar se sentem ainda mais sedentos. Sabes, percebi já há uns anos que as lágrimas só são amargas se a mágoa que a pessoa deixa for maior do que a doçura que foi espalhando. Podemos estar descansados não achas?
Vá, deixa que as lágrimas corram, não as aguentes que os olhos incham e ardem, ficam vermelhos e toda a gente sabe que tentaste não chorar e não conseguiste. O mundo não acaba hoje acredita. Vamos sempre ter os nossos passeios e cozinhados. Vamos conseguir lembrar sempre a quantidade de açúcar que cada um gostava no café e quanto queijo gostávamos ambos no esparguete. Vamos poder ouvir os nossos tangos, cada um em sua casa, com nova pista de dança improvisada e quiçá um novo par para ambos, à frente do aquecedor amarelecido de incandescência sem uma única lágrima.
Não chores amor que eu vou sempre lembrar como estava o teu cabelo da última vez e reparar que o tens diferente. Lembrarei sempre também os vestidos que o teu guarda-vestidos guarda e dizer-te como é bonito e te cai bem o cinza curto que um dia vais ganhar coragem de comprar e vestir.
Pronto, está bem, chora lá um bocadinho vá. As lágrimas não são más como as pessoas as julgam. Entala a voz numa dúzia delas. Se não por mais nada, pelo menos, para te livrares da dor que te deixo ao partir.
Sei lá... Chora para me mostrar que te custa eu virar costas. Chora por favor. Uma lágrima triste que cai ao chão e seca à frente do aquecedor.
Caramba.
Chora, diz que me queres e que podíamos tentar de novo porque só assim eu sei que há doçura entre nós e que não estavas ansiosa pela minha partida. Eu parto na mesma claro mas ainda assim gostava de saber que tenho lugar na tua vida.
Pronto não chores, tudo bem.
Eu pego na minha tralha, despeço-me do canário que compramos juntos e que não canta para não se despedir de mim. Pego em mim e trago-me para fora de tua casa e tu podes fechar a porta com a naturalidade de quem julga que volto no dia seguinte.
Mas não volto e fico a pensar a partir de que distância a madeira da tua porta consegue isolar o som do meu choro.

27 de setembro de 2009

Olá

Num mundo perfeito (pasmam-me as vezes que começo frases assim) eramos todos familiares ou amigos. Entravamos num café e sentavamos-nos numa mesa a tomar um copo com uma total estranha que, neste mundo perfeito, não era estranha durante muito mais tempo. Ficavamos ali a ouvir as coisas aborrecidas que a tornam uma pessoa interessant. As doenças do pai e da mãe, os amores e desamores, o que faz para ganhar a vida. Se gosta do que faz...
Nesse mundo perfeito um homem poderia ser simpático para uma mulher. Poderia também abordá-la na rua e dizer
- Que belo cabelo tu tens.
sem que a tal moça do belo cabelo achasse que eramos uns pervertidos que na realidade estavamos a elogiar-lhe as mamas. No tal mundo, os autocarros eram reuniões de familia onde todas as pessoas ouviam e falavam como se se conhecessem há anos.
Nesse mundo, em vez de te sentares lá ao fundo do comboio com os teus phones a debitar metal como um repelente de insectos anti-conversa esperavas-me com um sorriso e contavas-me o que ias fazer e o que tinhas feito para continuares a ser a pessoa mais incrivel que conheço. E lá ficaria eu fascinado e apaixonado e ficavamos, talvez, felizes para sempre.
Mas em vez disso vivemos neste mundo fechado em que todos caminhamos como hamsters dentro de uma bola de plástico translúcido. Podemos ver outras pessoas, podemos deseja-las mas estamos proibidos de comunicar e tocar nessas pessoas que têm a sua própria bola protectora.
Num mundo perfeito (cá está, mais uma frase começada assim) todos nos tratavamos por tu e eu já te tinha dito
- Que bela pele tu tens
sem que tu estranhasses a ousadia e interpretasses erradamente o meu fascínio.

20 de setembro de 2009

Lá em casa nada igual

No dia em que nos conhecemos não estava assim quente. Chovia e havia acidentes na rua. Como hoje está calor e o trânsito flui eu nem me lembro que faz hoje três anos que nos conhecemos. Também se torna cada vez mais difícil lembrar como os teus olhos eram amarelos (e tu achavas uma parvoíce não encontrar uma cor melhor para os descrever) ao sol. Um amarelo escuro com rasgos acastanhados e uma mancha verde. Em tempo mais sombrio os teus olhos eram verdes com a mancha azulada. Sim... Cada vez é mais difícil lembrar com exactidão. Lembro que odiava quando dizias asneiras mas também odiava tabaco e adorava a forma como tu fumavas portanto vai-se a ver e até adorava a tua forma de dizer asneiras.
Quase que entra o Outono mas a tal chuva que caía no dia em que nos conhecemos hoje fica lá em cima. Não lá em cima porque lá em cima não há moradias de gotas. Céu limpo e as gotas estão aglomeradas todas, penso eu que bastante apertadas, num campo de refugiados de gotas a norte sul este oeste daqui. Aqui chuva nenhuma. Nem do céu nem minha que agora com as rugas que me rasgam a cara não convém facilitar e deixar que mais água as eroda como uma falésia que dura com a dureza que se dissolve na paciente suavidade da água.
No dia em que nos conhecemos, lembro agora, chegaste a horas e eu a dizer
- Foste pontual
Tu a responder ainda envergonhada
- Eu chego sempre a horas
Agora sei que é mentira. Há mais de ano e meio que marco encontros e tu não apareces. Mando-te mensagens, ligo-te e nem uma resposta que confirme ou desminta que vens. Agora eu aqui agarrado a memórias que já nem sei se lembro bem e a uma ruga no olho esquerdo que juro por mim e por ti que não estava lá antes de teres desaparecido. Naquela manhã em que a cama vazia se transformou numa casa em que ao chegar nem um cheirinho de esparguete, nem um som de televisor, nem nos dias bons um corpo nu à minha espera. Nada. Uns lençois vazios que foram perdendo o teu cheiro tal como a casa foi perdendo o teu cheiro, o teu som, a cor dos teus olhos e a sombra do teu corpo envernizado nos espelhos do corredor. Na cozinha a cafeteira onde ainda faço café à tua maneira mas nunca sai à tua maneira.
Hoje não chove como chovia e os carros não batem. Os condutores não discutem. Que desculpa tens para demorar tanto a vir num dia de sol assim e no qual até podias dizer
- Foda-se vou fumar um cigarro
que eu ficava aqui fulminado de devoção a observar enquanto me aliviavas a ruga do olho esquerdo?

13 de setembro de 2009

A face que enviou mil navios

Certa noite sonhei que ela adormecia ao meu lado, no carro, numa qualquer viagem. Por intermédio das curvas ou necessidades de conforto toda a face dela estava virada para o exterior, no sonho dela, a ver fosse o que fosse.
Um sonho dela dentro do meu sonho.
Iamos a caminho de qualquer sítio feliz, disso tenho a certeza. Embora não saiba quem ela era sei que no sonho era a minha mulher, casados ou não nem interessa, ela minha mulher e eu homem dela, assim com posse e segurança e submissão insegura. Durante todo o sonho, que nunca deixou de ser um sonho, eu só lhe via a parte de trás da orelha, o cabelo no ombro adormecido como ela e o pescoço relaxado. Tudo do lado esquerdo.
Não a tentei virar, não tentei ver quem ela era. A paz raramente necessita de feições.
Passei anos a pensar nesse sonho, associei-o à magia das viagens com os meus pais e ao enorme desejo que tinha de conduzir e amar. Conduzir carros amar mulheres. Por esta ordem.
Um dia, enquanto conduzia uma delas no regresso a casa, uma pergunta não regressou com resposta. Ficou ali suspensa entre o barulho do motor e o ritmo suave da música. Pensei em dezenas de razões para ela não me ter respondido. Conduzi quilómetros até que me ocorreu questionar se ela tinha ouvido. Ainda por cima era uma pergunta banal e sem gravidade. Não havia razão para não me responder.
Ao olhar na direcção dela. A resposta.
Ela dormia. Um sono leve, interrompível com o mínimo solavanco. Ao contrário da mulher do sonho eu via-lhe a cara e fiz questão de lhe dizer, quando chegamos e ela acordou com a quietude do carro (bela estranheza esta de termos medo de acordar alguém com um solavanco mas conseguir que ela desperte ao ausentar os movimentos), que ar engraçado ela tem quando dorme. Perder o sorriso e ficar séria não é nada o estilo dela. Ao dormir, as suas bochechas caem como se o sorriso dela fosse a gravidade zero de toda a face, anulada pelo adormecer do resto do corpo.
Ela sorri. Beija-me.
E eu lá sem inspeccionar a orelha ou o cabelo rabiscado pelo ombro que tapa o pescoço que fica também por comparar. Eu só a inspeccionar o olhar dela e as bochechas, já na lua ou submersas com o sorriso que ela abre, a elevar toda a cara. Cara que, na do sonho, nem conhecia.
A paz às vezes tem face e não há sonho mais pacífico que aquele.

6 de setembro de 2009

Tenho-te

Os ingleses têm uma expressão que explica bem o sentimento de vigília por alguém.
"I got you"
Somos responsáveis pelas pessoas que fazem parte da nossa vida, quer nos devam alguma coisa ou não. Quando se diz
- Fico-te a dever uma
nem sempre se contrai uma dívida. Muitas vezes é só o peso mental ou talvez moral de ter um vinculo entre duas pessoas. E duas pessoas ligarem-se, num mundo tão grande e populoso, não pode ser vulgarizado.
No Principezinho a raposa ensina ao pequeno protagonista o que é cativar e a responsabilidade para a vida inteira que temos pelas pessoas que cativamos. Assim como se fosse (e é) uma das coisas básicas que todas as crianças têm de aprender antes de crescer.
Costumo avisar, numa despedida, que comigo as pessoas não têm nada que agradecer e dispõem sempre. Uns agradecem-me a achar que estou a dizer aquilo por conveniência, outros, os que me conhecem não agradecem, piscam o olho ou sorriem como que a dizer
- Eu sei.
É bom tomar conta de vós...

30 de agosto de 2009

Azul

Obviamente que te procurei. No dia em que pensei escrever isto, no dia em que comecei a escrever, no dia em que rasguei a folha, nos três dias seguintes e também hoje, o dia em que finalmente reescrevo tudo.
Sim, procurei-te. Por baixo das mesas a ver se os sapatos verde sapo estavam cruzados. Procurei também por cima das divisórias das mesas na esperança que de lá emergisse a tua profunda e agitada cabeleira castanha, interrompida de madeixas azuis e daquela borboleta vítrea com que apanhas o cabelo. Andei a cheirar o ar de olhos fechados a ver, perdão, a sentir se apanhava o rasto daquele aroma que só tu tens e que enche onde tu estás.
E nada. Nem tu, nem sapatos, nem borboletas, nem perfume. Tu foste e eu aqui, ridículo e perdido. Eu que sempre disse
- Olha que eu não sou como os outros homens
e afinal sou. Ridículo e perdido e desesperado por teres partido do nosso local e não estares em nenhum dos meus ou teus.
E não era que as sombras não respondessem às ordens da tua anca nua ou tapada com aquele vestido azul caneta bic que ia tão bem com os teus joelhos. A luz a enevoar-se vergada nas curvaturas do teu doce planeta. Aqui rosado pele ou azul caneta bic, ali cinza sombreado.
Também não era que a tua voz não me agradasse, nem o teu olhar vítreo como a borboleta, se a borboleta fosse azul como é o teu olhar, me desagradou alguma vez.
Sei lá o que era que me fazia dizer
- Olha que eu não sou como os outros homens
quando não tinha mais argumentos.
No dia em que foste, com os teus joelhos, ombros e sapatos verde sapo no meio de mais uma discussão, a única que não acabou em perfumes misturados na cama ou sofá e vestido azul caneta bic no chão perguntaste-me, com calma mas sem tempo a perder
- Está bem, já percebi que não és como os outros homens. Mas afinal és melhor ou pior?
eu de boca aberta em pasmo. Sempre me bastou, contigo e com as outras antes de ti, dizer que era diferente dos outros e pronto. Vocês agradecidas por eu fazer esse favor de ser vosso e a conversa acabava ali e recomeçava numa outra direcção.
Fiquei sem responder e tu ficaste sem ficar e foste para um sítio que não é este nem nenhum dos outros por onde já passei à tua procura. Em casa ainda está o vestido azul caneta bic arrumado no teu lado do armário e o perfume meio gasto no teu lado da cómoda no caso de regressares e quereres deitar o vestido ao chão e misturar os nossos perfumes na cama ou no sofá só mais uma vez.
Não sabias dizer, antes que me faltasses tanto, que não eras uma mulher igual às outras?

23 de agosto de 2009

Asas

Há um momento antes da partida em que não somos nós. Somos outro qualquer sem história ou herança. Somos uma tábua rasa como um bebé acabado de nascer.
Depois um tiro ou uma voz
- Vai!
e voltamos a ser o que somos. O treino que nos levou até ali. A dor sem a qual não chega o ganho. A história do esforço e a herança de um corpo bom.
O medo que o corpo rompa.
E é rápido, muito rápido, que nos movemos, um grande passo de cada vez de forma que correr já não é equivalente a andar rápido mas sim a voar raso. Um toque esguio de cada vez como uma garça ou cegonha em descolagem de um lago. As vozes na cabeça
- Dói-me a coxa
ou
- Da última vez ia mais equilibrado
ou
- Já perdi tudo só na partida
o descrédito e o joelho que só com injecções curou a última das tentativas de bater o recorde. O pé que tocou no chão mais do que devia.
A voz do primeiro treinador
- O pé não toca no chão. Só os dedos. Só os dedos!
Não há gravidade alguma. Não há piscina que transmita tanta leveza como correr. Correr com o corpo todo. Levantar as pernas o mais possível e castigar o chão por nos querer prender. Empurrar os braços como um boxeur para a frente e para cima a cortar o ar. A cara deformada do esforço e da deslocação da massa corporal. O coração que quer correr mais que nós.
Não sei como é com os pássaros mas com o Homem são as pernas que lhe dão asas.