27 de dezembro de 2009

Década

Não foi fácil passar do ano 2000. Sentir a responsabilidade de passar aquele marco histórico, todo o legado de preocupações e superstições que anunciavam o fim do mundo e depois, numa enorme apoteose de coisa nenhuma nada aconteceu. Fechou-se o século numa noite de chuva normalíssima sem sequer ter o estalo de um foguete.
Mas para quem, como eu, nasceu a meio ou na metade final dos anos oitenta esta noite anónima em que o mundo não acabou haveria de ser o início da vida como ela deve ser.
Esta década foi a que mais nos ensinou. Foi aquela na qual mais choramos e sofremos. Mais amamos e aprendemos. Ao longo destes anos despedimo-nos sem saudade da adolescência e a responsabilidade fria da vida adulta chegou sem aviso. Durante todo esse tempo fomos descobertos e perdidos. Continuamos a estudar ou fomos trabalhar. Temos filhos e uma casa ou então uma dor que não vai embora por mais pessoas que deitemos na cama.
Se calhar até começamos a ter um pouco de saudades da adolescência.
Além disso vamos ter muitas histórias para contar sobre como o mundo mudou durante este tempo em que crescíamos. Nós, que supostamente seríamos uma geração sem causas, vimos terrorismo, guerra, crise, desemprego e tantas outras infelicidades públicas e privadas serem alinhadas para resolução. Nós somos os adultos. Havemos de resolver tudo.
Acima disto tudo, da gente que morreu e não devia e das lágrimas que caíram sobre quem nem conhecíamos fica a memória de uma década em que aprendemos a amar. A bem ou a mal abandonamos as paixões adolescentes e abraçamos o agridoce dos grandes amores adultos. Aqueles que nos marcam de forma como nunca outro antes marcou. Amores que se correrem bem podem demorar várias décadas a saborear ou se correm mal podem levar uma vida inteira a esquecer.
Depois do grande 2000 o mais importante que fiz foi aprender a amar. Foi dar uns abraços, uns beijos, uns passeios e acordar sempre numa cama quente ao lado da pessoa com quem me tinha deitado na noite anterior. Foram os sorrisos e as mãos enlaçadas. Foram as fotografias, as escadas e as calçadas. Os cafés e restaurantes com velas. Os animais a comerem-me da mão.
Foram as saudades de tudo.
Aprendi que só choramos pelas coisas que um dia nos fizeram sorrir e na próxima década, que está ali a chamar-nos, só desejo coleccionar sorrisos que retardem as saudades o tempo suficiente para que a chuva de lágrimas não caia, fria, em cima da fronha da minha almofada, contigo a ver.

20 de dezembro de 2009

Fala-me em reticências

Tinha ideia que o teu cabelo tinha a espessura de uma mina 0.5 de lapiseira. Tinha isso como certo até te pentear, naquela varanda gótica para o rio, e perceber que era ainda mais fino porque ao desenrolar nos meus dedos parecia até que cortava como papel.
Do lado de lá do rio um palacete com jardim, tudo em ruína. Sabe-se logo que uma casa está para morrer quando do seu jardim consta mais verde selvagem do que o colorido cuidado das flores.
-Um dia monto ali uma escola. Assim um colégio barato que só cobre o necessário. Todos os meses fazia as contas e cobrava o que fosse preciso. Eu ensinava Inglês e recebia 500 euros. Se fosse preciso vivia na torre ali de cima e ia parecer que dava aulas na minha sala. Às vezes tocava-se piano...
e sorrias, como sempre fazias quando acabavas uma frase com reticências.
Eu, que até então me tentava inserir na tua vida lentamente, abri de rompante a porta da tua sala de aulas para te tentar impressionar
-E eu? Posso ser o professor de educação física?
tu com um sorriso contrariado disseste
-Sim claro.
na realidade elogiava-te demasiado e de repente a nossa relação era um teatrinho romântico a tentar estrear numa cidade industrial. Eu o palhaço poeta, tu a filha do patrão emparedada na tua crença de ser impossível um dia seres feliz.
Depois do fim do sonho e da continuação da nossa solidão devias ter continuado a ir ao nosso café. Lembras-te do Senhor Mendes? Cavalheiro à antiga que era mais simpático contigo quando eu não estava? Mesmo depois do fim ele merecia que de vez em quando lá fosses pedir um bolo para levar só porque ele embrulharia o pacote com melhores dobras e um laço de algodão que no final recebia a frase naquela voz a pedir desculpa por existir
-Aqui está menina. Bom proveito e obrigado.
Depois do fim eu continuei a ir lá e tanto eu como ele empedrados com a tua ausência à mesa. No trato frio das transacções e quando peço um lanche como tu sempre pedias ele não mo embrulha com fio
-Um euro e vinte se faz favor, obrigado.
No ar a ausência das tuas reticências fazem com que os pontos finais caiam estatelados no meio das nossas frases. O que fica por dizer é relativo a ti e por isso tanto melhor que fique guardado num vácuo da vergonha e receio.
Esta semana, a faltar tão pouco para o Natal, eu agradeci-lhe em teu nome dizendo que tu lhe mandas cumprimentos. Os olhos a sorrirem, milhões de minutos de rugas absorvidos e a voz naquele tom que ele guardava para ti quando eu não estava
-Desejo um santo Natal a si e à sua menina...

13 de dezembro de 2009

Jackpot

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Quis Deus, ou sabe-se lá o quê, que o meu maior sonho fosses tu e que tivesse de te conhecer quando já tens obra feita com outra pessoa. Que merda.
A sorte dele é que não me sai o totoloto (sou antiquado, que queres...) para relançar a minha vida. Arranjava dois tipos para o matar de forma aparentemente acidental. Dois gajos caros, nada daqueles ucranianos certinhos que iriam à polícia e me lixavam o esquema, um assalto simulado ou uma ligação do alternador ao depósito de gasolina do carro. Uma coisa simples e eficaz.
Depois aparecia eu, feito psiquiatra amigo conhecido por coincidência, e do meu apoio e amizade surgiria o amor. Um dia até me dirias que grande era o teu arrependimento por não teres esperado por mim. Que o teu marido era bom homem mas não era nem tão divertido nem tão amável como eu. Não te dava o lado direito dos passeios nem te puxava a cadeira nos restaurantes. Tu, no auge da tua frescura e ele que mal te tocava concentrado no trabalho que punha comer na mesa mas que tingia os lençóis de tédio. Depois davas-te a mim, para curar feridas e descobrir o que um velho grisalho (todo eu cinza e preto) tinha para te dar no início da curva descendente da frescura do teu corpo.
Eu a amar-te sempre, mesmo quando estivesses tão feia como a minha vizinha da frente que ainda suspira pelo marido morto em Angola. Eu imortal contigo a suspirar pela minha boa saúde e delicadeza de cavalheiro a causar inveja às amigas que enquanto me ausento da mesa te dizem
-Já não se fazem homens assim, que sorte tu tens
e tu a sorrir orgulhosa e feliz pelo destino te ter posto no meu caminho. Contente por o teu emprego te obrigar a apanhar o meu autocarro todas as manhãs, quando tomaste banho há meia hora e às vezes ainda o cabelo pinga a escorrer pelos ombros a tornar a camisa branca translúcida.
A sorte do teu marido é que não me sai nada. A sorte do teu marido é que tu não prestas atenção a motoristas de autocarro mais velhos, vestidos com a farda regulamentar.
A verdadeira sorte do teu marido é que na cabeça de um tipo com o nono ano, com um coração manchado, só faz sentido roubar a mulher ao seu marido através da morte e do dinheiro. Como nos filmes, esses sonhos em película, que só roçam superficialmente no limiar da imaginação castrando-nos de possibilidades de ser alguém.

6 de dezembro de 2009

Verão

-Eu não preciso disto sabe, tenho filhos que me fazem companhia e ligam quase todos os dias.
Diz-me o excêntrico da estação, não o chamo louco porque chamar louco dá tanto azar como a inveja e ainda acabo como ele. Falta muito pouco para as 6 da madrugada e já o Sr. Jorge observa, sorridente e elegante com o seu blazer aos quadrados e cigarro na boca
-Desde que os espanhóis lançaram estes cigarros mais baratos que posso fumar um maço e meio por dia.
o comboio que sai em direcção à ponte ainda se vê ao longe e Jorge, porque o Sr. o faz mais velho, justifica-se
-Venho cá todos os dias, todo o dia, durante a Primavera e o Verão ver as pessoas a ir e vir. Sabe que nós somos como as aves. Emigramos para sítios mais quentes. No Inverno deixo de vir porque só as pessoas tristes não emigram e ficam aqui a lamber a amargura das bochechas e a comer cigarros. Eu tenho desculpa, sou velho, não tenho ossos para ir agora para o Brasil ou África. Imagina-me a assobiar às catraias com esta idade?
por acaso imagino mas não lho digo, o Jorge tem aquele aspecto de tipo que não morre, um daqueles velhotes que com 90 anos se levanta cedo e toma um banho de água fria só porque acha que isso lhe faz bem, com a ocasional bebedeira e a derreter cigarros como as massagistas derretem tensões.
-Sabe. A minha mulher emigrou, a minha garça, tão bela que ela era. Um dia quando o inverno estava a começar ela foi atrás de uns pássaros que imigravam para sul. Imagina o que era na altura eu namorar com uma mulher da televisão? Ninguém via os programas de animais mas ainda assim eu me gabava de ter casado com uma mulher da televisão. Mas pronto. Ela foi e não voltou, na altura as notícias chegavam tarde e demorei quase meio ano a saber que ela tinha conhecido um ricaço qualquer, dono de um zoo, amor, casamento e um ninho espaçoso e quente todo o ano. Eu fiquei aqui a tomar conta do nosso ninho, ao qual ela não voltou, e às nossas crias que cresceram belas como a mãe e fumadoras como o pai. Ligam-me quase todos os dias, sabia? Desde o casamento que venho cá, ver as pessoas sorrir e chorar. Os comboios que chegam e vão. Não há sitio mais feliz que uma estação de comboios mesmo quando de ambos os lados dos vidros duas pessoas choram. O choro são saudades e só temos saudades das pessoas que regressam um dia. Portanto não chore, vá, deixe-a ir. Fume um comigo e veja lá esta foto do meu mais velho, maquinista do metro.

29 de novembro de 2009

Inverno

A casa não se vende, faz daqui a três dias seis meses que está à venda e para já, da mão cheia de visitas ainda nenhuma deu em sucesso. Casais jovens e felizes inspeccionam as divisões, observam as vistas e testam as lâmpadas. Ficam encantados e julgam que ali é o sítio onde vão fazer toda a vida. Já pensam até num catraio ainda sem nome para ocupar o quarto que transforma o apartamento em T2. Pensam ser aqui o seu local preferido até eu dizer
-O único inconveniente é o frio e a humidade
e o tal casal já a preparar a ronda negocial com um desconto que compense o inconveniente de ter frio e ter de pintar o quarto todos os anos. Então digo
-Estas faixas têm algumas formigas que vêm do soalho da cozinha, cuidado com os pés porque a madeira é muito frágil e parte. Depois ficam com formigas por todo o lado.
Aí o casal já murchou, o bebé vai ter de esperar mais um bocado e partem a dizer que depois dão uma resposta. E nunca mais ligam.
Hoje, lá se vai a minha jogada, tu também vens ajudar na visita, desconfiada de que esta casa tão luminosa e barata não se tenha já vendido por minha culpa. Pensas que eu saboto as visitas e então dizes-me
-Faz de conta que está tudo bem entre nós e que vamos mudar de casa porque me apetece.
E quando te respondo
-Não tenho dificuldade nenhuma em parecer feliz contigo. Isso é-me natural.
tu dizes sem olhar
-Não sejas parvo.
Com o temporal desta noite, neste inverno tardio e irado, a placa que dizia VENDE-SE desapareceu, levantou voo e aterrou num local qualquer.
-Foste tu que tiraste o vende-se?
-Claro que não. Foi o temporal desta noite. Se fosse romântico diria que é um sinal dos céus que ela tenha desaparecido e que alguém nos está a pedir que voltemos a mobilar a casa e ocupar o dois do T2.
e tu, num momento pouco suspenso, a tua resposta fácil e rápida, preparada porque sabes que as minhas técnicas de sedução são todas tão simplórias e previsíveis
-Não sejas parvo.
Ao limpar contigo a casa agora ampla com um vazio claro e anónimo relembro, quando tu e eu, jovens e felizes, passeamos pelos corredores ainda empoeirados de cimento e imaginamos como colorir à mão o quarto da Bia.
Entretanto e por ordem, fomos felizes e amamo-nos, nasceu a Bia como esperado, compramos um gato e um periquito, tu começaste a fumar e a trazer um after shave no cachecol que não era meu e um dia nem tu nem bia nem gato. Ficou na mesinha da entrada um papel de despedida, um impresso para o divórcio e, na varanda, um piriquito que não canta há mais de quatro meses.
A separação de bens prevê a venda do imóvel e só aí o divórcio tem seguimento. Seguirá o divórcio e a tua vida com um gajo que não sei quem é mas cheira bem e não deve ter ideias românticas ou periquitos afónicos. Precisas de um gajo sem drama e poesia para te chatear. Ele fica lá para um canto a cheirar bem e tu a educar a nossa Bia a chamar-lhe pai.
A placa VENDE-SE caiu e lá fora uma chuvada biblica a arrastar caixotes rua abaixo, ainda assim um casal amoroso, tu e eu com menos uns dez anos, encontrou a casa e aparece a preto e branco no video porteiro. Abres a porta do prédio, viras-te para mim, os olhos decididos mas caídos da idade e dizes
-Hoje a casa fica vendida e a nossa vida continua.

22 de novembro de 2009

Primavera

Acho que a terra, aqui, secou. Aqui e no meu caminho até ao trabalho. Na terra morta, tal como num esgoto estéril, só sobrevivem as ervas daninhas como se fossem ratazanas quietas movidas a vento e fome. Das nossas árvores, nada, até as heras encontraram melhores troncos para sugar.
Passou já tempo suficiente para árvores e plantas crescerem, na borda daquele caminho que dantes percorrias comigo, e para as frutas dessas árvores e dessas plantas crescerem, amadurecerem e caírem. Mas as coisas são assim mesmo, tivesse tudo corrido de feição, com pouca geada e mais uns tantos dias de sol e já nós tínhamos tempo de sobra para pôr um fruto dentro de ti, deixá-lo crescer e amadurecer e passados nove meses cair de ti minha pequena árvore. Não bastou a paciência para nem mais um dia ou dois, quanto mais para nove meses e agora os sorrisos aparecem-me de semanas em semanas.
Como ia dizendo, passei naquele caminho onde religiosamente distribuíamos os caroços de frutas que comíamos e sementes de flores descartadas pelas floristas, na esperança de que, sei lá, qualquer coisa e no dia seguinte aquilo fosse um pomar com uma estrada no meio onde só cabiam dois pares de pés apertados pelas mãos dadas. O terceiro par podia ir ao colo como uma pêra ou rente ao chão como uma borboleta.
Agora acredita em mim porque o vi, nada cresce na lama. Do nosso caminho tão delicado fizeram um estaleiro de obra. E não, não foi o nosso éden que se tornou num destino turístico que justifica um chalé cuidado, foi sim aquele meio quilómetro de terra que ganhou um preço por metro quadrado e foi vendido às peças, despedaçado e desossado como uma carcaça onde irão um dia surgir moradias espaçosas tão estéreis como o chão que envenenaram e as famílias lá dentro a viver uma vida de flores amarelas, fruta enlatada e pão seco sob uma maldição shakesperiana que os parta todos.
Podias vir comigo lá um dia, levantávamos alguns paralelos da calçada e plantávamos uma mão cheia de pevides de melão e quem sabe, qualquer coisa e no dia seguinte nós os dois a levantar a maldição a uma das moradias com tulipas no jardim, bananas na travessa e uma borboleta rente ao chão com os teus olhos a saltitar no relvado.

15 de novembro de 2009

Outono

Não é fácil ser homem. Viver num Outono permanente. Esta estranha espécie de peso amargo nos ombros. Estes segredos dolentes como o frio inesperado naqueles dias de folhas estaladiças no chão em que a roupa de Verão deixa de agasalhar e proteger.
As mulheres serão de Vénus e os homens de Marte, nem discuto essa teoria, mas sei, com toda a certeza, que os homens são Outono e as mulheres Inverno. A tristeza feminina é frontal e torrencial. Tem uns dias brandos mas depois vêem em conjunto uns tantos dias de tormenta em que só em casa se está a salvo. Os homens não chovem. Há aquele nariz pingado e os pés frios. Há as folhas ora secas e barulhentas ora húmidas e escorregadias no chão. Há a ameaça de mais humidade e mais frio que nunca se confirma.
Os homens têm em si transições tristes, pores do sol com nuvens carregadas e pés revestidos a sapatilhas molhadas pela chuva. Carregamos connosco as saudades de casa, a ver na internet vídeos da nossa cidade com a fé no sinal de banda larga que estreita o contacto com as memórias só um pequeno soluço de cada vez. Andam-nos no corpo as saudades da mulher e dos filhos, namoradas, ex namoradas e amores por cumprir.
Saudades do tempo em que as ruas eram nossas e em vez de terem um nome tinham uma pessoa. Aqueles trajectos aos quais nunca prestamos atenção até que surge a paixão por alguém que mora naquela rua. O nome da rua, o destino da linha e o número do autocarro passa a ser só o nome e a cara dessa pessoa. A angústia disso, do momento em que o nome da rua volta às placas, voltam os revisores do comboio a pedir o bilhete até ao término da linha e os autocarros aos solavancos mal sobem a rua com tanta gente apertada a pesar nas pernas do autocarro.
Os homens andam assim. Cheios de tanto frio e humidade por dentro que os ossos moem como pedaços de madeira a empapar. Andamos todos tão cheios de culpas e pecados, saudades e amores que não percebo como não somos todos um inverno continuo.
Deixem-nos chorar com os dedos na boca, o ranho a escorrer pelos lábios e as palavras a enlamear. Os nossos ombros já agradeciam o descanso e, quem sabe, com essa nossa sinceridade humilde não nasceria um pequeno sol, porque as crianças são estrelas sem planeta e são Verão e Primavera, aquelas estações nas quais todas as chuvas acabam em arco-íris.

8 de novembro de 2009

Goma

No dia seguinte a estar contigo não sinto a tua falta. Lembro-me de ti só raríssimas vezes e mesmo nessas vens-me à memória porque aquela cicatriz que me fizeste no lábio ainda cá está. Aquela que causamos por estar a brincar com uma goma, tu a morder um lado e eu outro, achaste que a partilha do urso, garrafa ou ovo estrelado -já não me lembro- não era justa e resolveste reclamar mais um pedaço. E nesse dia que me mordeste sangrei a rir sem imaginar que me ias tirar pedaços cada vez maiores de doçura até chegar ao azedume que acabou connosco.
Mas pronto, como estava a dizer, nesses dias seguintes a te ver, mesmo naquela nesga de tempo ao saíres para o café que bebes todos os dias às 17:15 e durante todo o caminho te observo enquanto dói cá dentro a vontade de te acompanhar. Mesmo nessa altura, não sinto a tua falta.
Mas por vezes passam mais dias e aí dou por mim a falar de ti a todos. Como se fosses um filme que ninguém podia perder ou uma música que todos têm de ouvir com urgência. Como se alguém partilhasse da minha paixão inexplicável. Um hobby exclusivo intransmissível.
O que não te disse quando te liguei foi que soube que estava a perder as estribeiras quando te vi numa fatia de fiambre. Fazia já 5 dias que não via os teus passos pequenos e cautelosos a calcar a calçada nesses saltinhos cómicos que dás quando usas saltos. Sabes as pessoas que vêem santos nas sombras e nas manchas de humidade? Lembras-te como tinhas um nome caro para essas coisas que queremos tanto ver que vemos mesmo numa coisa totalmente diferente? Pois isso aconteceu-me contigo e fiambre. Imagina o ridículo.
E eu a olhar para a sande, que como sempre às 17 e a pensar que pronto.
Vá. Já chega.
Quando te liguei só te disse
- Quero que saibas que vou mudar de emprego. Apareceu uma oportunidade e vou agarrá-la. Só tu me mantinhas aqui e pronto. Passou sabes... Se precisares de mim diz mas eu já não preciso de ti.
e tu, numa confusão de criança abandonada por um animal doméstico que julgamos vinculado por uma trela emocional que previne fugas
- Tem calma. Vais para onde? Eu ia-te ligar para irmos jantar. Resumir as coisas. Sei lá... ver se podíamos reatar o que ficou por resolver (sempre foste tão dramática a falar)
- Minha goma. Vai tudo ficar bem. Faltam-te 10 minutos para o café das dezassete e quinze. A única diferença é não teres ninguém a ver-te da janela. Atravessa sempre na passadeira e tem cuidado porque já não tomo conta de ti. Mas acredita. Se eu estou bem tu também vais ficar.
Choras e não entendo o que dizes. Quem chora tem menos doçura e talvez por isso tanta dificuldade tive, após ter chegado ao destino, a encontrar o local certo da minha cicatriz. Ao sorrir a cicatriz desaparece e a doçura volta.
Logo a mim, que antes de vir embora me precavi com um quilo de doçarias sortidas para as quais agora não tenho destino nem necessidade.

1 de novembro de 2009

Três em cinco

Futebol. Em campo quatro cheerleaders, nos momentos que antecedem o jogo esperado, a fazer publicidade a uma marca qualquer. Urros e assobios. Sintomas da finda tradição masculina do futebol, um rasgo de liberdade num local que, felizmente, se democratizou e embelezou com aquelas que dantes ficavam em casa ou no carro a tricotar.
Ao meu lado um senhor mais velho, companheiro de lugar já há uns anos e de quem, ainda assim, nada sei além do nome, que gosta de casacos de couro e aperta com força a mão ao chegar, exclama desalentado
- Só uma delas vale mais do que nós todos juntos
isto dito de forma triste como se de repente descobrisse que estava orfão, tinha falido e a mulher o tinha deixado por isso mesmo.
Eu a pensar na tal fatal frase, porque temos de ser humildes perante pessoas mais velhas, e em que medida ela se aplicaria a mim e à minha experiência de pessoa com idade para ser filho dele.
Descubro que a estatística e a memória não me deixam ficar mal. Três em cinco é a conta. Das cinco mulheres que conheci, três não merecia e, lá está, fiquei orfão, fali e elas perceberam que temos sempre de procurar pessoas que não merecemos e que nos melhorem por comparação e aprendizagem.
Com a primeira aprendi quantos centímetros de pele escondidos as mulheres têm ao tomar banho (não lhe merecia o corpo), com a segunda aprendi que também o cabelo é erógeno e ainda que os olhos podem chorar ao fim de um beijo (não lhe merecia a leveza) e com a terceira aprendi o segredo -que não partilho- da escolha das maçãs verdes mais doces, da importância dos abraços como expressão pura de carinho e amor e ainda como é possível sorrir com o olhar mesmo tendo os olhos fechados (a esta não lhe merecia o corpo, nem a leveza, nem a magia).
Assim vai sendo o tempo, no estádio exultaram mais algum tempo com o corpo das dançarinas que não merecemos enquanto na minha cabeça ainda exultava em solidão, com a memória dos banhos aromáticos, das danças de cabelos embrenhados e dos abraços de corpo inteiro a sorrir de olhos fechados. Assim vai a luta pelo merecimento.

25 de outubro de 2009

Naturalmente

As coisas que fazemos bem sabemos como as fazer sem olhar. Fazemos-las até mesmo sem pensar nisso. Não pensamos em respirar, deixar bater o coração ou até em andar. Queremos que algo aconteça e ele aparece feito.
Pergunta a um pianista ou guitarrista se pensam que têm de atingir a nota tal que está na pauta para o fazer acontecer. Eles dirão que não, no início talvez mas agora já é automático e fácil. Tal como respirar.
Para mim é automático encontrar as teclas correctas do computador e conduzir. Essas coisas acontecem dentro daquela zona do meu cérebro que guarda as tarefas repetitivas e que vão sendo refinadas. Claro que também automático em mim é amar-te.
Acontece porque sim e sem pensar. Sem sequer pensar para onde direccionar o coração ele virou-se sozinho para o teu sentido e por lá segue, sem se arrepender da estrada percorrida e sem sequer consultar mapas, placas ou GPS's.
E como é automático, como é tão meu como respirar, sou muito bom nisso. Sei como te tratar e o que fazer para sorrires. Com naturalidade, como se viesses com livro de instruções e seguisse sempre o capítulo mágico que aborda o que fazer quando tudo o resto falha. Aquelas soluções incríveis que tudo resolvem. Que tornam tudo estupidamente fácil e que põem o resto dos mortais a perguntar
- Como fizeste isso?
e eu a sorrir com a naturalidade com que negoceio o difícil estacionamento na tua rua.
Toco-te como nas teclas do computador e guio-te como nas estradas à noite e à chuva. Respiro-te.
Amo-te.

18 de outubro de 2009

A quem tudo se perdoa

Há pouco tempo, em discussão salutar com uma amiga, dizia-lhe que se Deus existe como bóia de salvação da gente desesperada (e ainda ontem foi dia mundial da depressão) também acreditava em Deus porque assim é uma ideia auxiliadora e não uma entidade salvadora. Ideia essa de que não preciso mas à qual reconheço utilidade.
Se há na terra mostras de divindade será naqueles objectos ou pessoas que nos causam o Stendhal Effect. Este efeito foi relatado pelo escritor francês Stendhal aquando da sua visita a Florença e durante a qual o mesmo sentiu aceleração do batimento cardíaco, tonturas e até alucinações quando estava perante uma peça de arte de excepcional beleza ou uma grande quantidade de obras num só local. Desde o início do século XIX, quando em 1817 a descrição apareceu num livro de Stendhal, até aos finais do século XX (em 1982 foi reportado o primeiro caso oficial) milhares de casos surgiram. Entretanto também Paris foi associada a este fenómeno por causar os mesmos sintomas no Louvre e nos monumentos emblemáticos.
É aqui que vejo o paralelo com aparições religiosas.
Alucinações relacionadas com um sentimento que não compreendemos de onde vem, geralmente provocado por uma peça de arte que não sabemos descrever são o de mais religioso podemos experienciar. É fé que vem de dentro.
E a gente é mastigada pelos deuses e vigarizada por falsos profetas e mesmo assim continua a construir-lhes obeliscos e menires de formas e valências diferentes. Mesmo assim perdoa as falhas justificando com as suas próprias que supostamente justificam o castigo deles. Aos deuses tudo se perdoa.
De volta aos artistas, os meus únicos deuses porque já Nietzsche dizia só conceber acreditar num Deus que dançasse, são eles que movimentam paixões e fanatismos semi-religiosos. Só eles têm a capacidade de nos deixar ficar mal e/ou cair em desgraça e nós ali a perdoar e acreditar. A defender perante quem ataca a legitimidade da devoção.
Também os artistas parecem ter características mártires de cristos. Penso de imediato em Maradona, Chet Baker, Elis Regina e uns tantos pintores envenenados pelo chumbo das tintas dos pincéis que afiavam com os lábios. Gente danificada pela sua arte e que agora serve de estudo de caso para que os artistas actuais, coitados, não danificados pela arte mas pela sua asfixiante falta de talento, justifiquem as depressõezinhas e demais doidois mentais.
No filme "Maradona by Kusturica" o Deus dos relvados questiona para o ar o que teria sido dele não tivesse havido a cocaína.
Eu respondo.
Teria sido o mesmo. Mas acrescia ao conhecimento mundial informal de ter sido o melhor jogador de todos os tempos o reconhecimento formal das instituições em vez do simpático e bem comportado Pelé.
E um Deus é isto. Falha por sistema mas é adorado e ouvido com atenção. Um magnetismo que move tantas montanhas como milhares de pessoas de joelhos numa catedral. Como traças a ver a luz lá vamos nós embater com o nariz no vidro.
Esta semana Maradona disse relativamente aos seus críticos, pedindo desculpa às senhoras presentes na sala, que "a" chupem e que "a" sigam chupando.
Aos Deuses tudo se perdoa.

11 de outubro de 2009

O Mecânico Constante

Os tradutores enganam-se muitas vezes. Coitados. Tenho genuína estima e pena por eles que andam consumidos de lado para lado a ganhar úlceras nervosas e hérnias de esforço à procura de tradução para uma frase que em inglês soa tão bem mas em português não sabe a nada.
Assim aconteceu com o filme The Constant Gardener traduzido para português como O Fiel Jardineiro. A confusão foi que o tradutor viu o filme e achou que o leitmotiv (olha cá está uma palavra intraduzível) era a fidelidade de um homem em ir até ao fundo de uma questão pela honra da memória da sua amada. Confusão normal e compreensível mas, na minha humilde opinião, errada.
O elemento central do filme é o fascínio e devoção masculina pela manutenção. A forma como este "jardineiro" paciente se rodeia das suas plantas e trata delas tem tanto de devotamente religioso como uma peregrinação.
Qualquer homem poderá testemunhar da alegria que é tomar conta das suas coisas. Há quase tanto prazer no mudar o óleo do motor ou as pastilhas de travão de um carro como conduzi-lo. Só dessa forma sabemos que não andamos a ser enganados por um placebo que alguém disfarçou e nos impingiu.
Somos assim nós homens quando as nossas ninfas privadas surgem depois do banho, ainda dentro de toalhas do tamanho de casulos gigantescos, e nos pedem que espalhemos um creme hidratante ou façamos uma massagem naquele sítio qualquer que doi. Há muito de egoísta nisto porque não só estamos a cuidar do que amamos usufruir como usufruimos durante o cuidado. Nós que tantas vezes temos vontade de parar enquanto as amamos só para ver, assim um intervalo contemplativo para absorver a beleza inatingível de cada suavidade feminina, e não podemos, com medo de sermos ridículos ao ponto de mais tarde entre as amigas haver o desabafo dessa coisa estranha que fizemos numa noite que foi parar a contemplar a estátua viva que ali amávamos.
Ainda no Fiel Jardineiro há o agradecimento da personagem masculina à feminina pela maravilhosa dádiva de esta ter feito amor com ele. Raios, nós somos tão ridículos...