7 de março de 2010

Uma caneca cheia de varanda

Tenho uma janela deprimida no meu quarto. Uma janela virada para uma parede onde tal qual um tronco desce um cano liso, pintado com o mesmo verde-caule da parede e pelo qual corre, em dias de chuva, toda a água que o telhado do prédio da frente recusa acolher. Neste quarto pequeno, Xis Xis Solteiro como lhe chama a minha mãe, poucas histórias acontecem além do guarda vestidos emproado, da cama com algum uso e da tal janela que não se vê ao espelho na parede do prédio da frente.
Nos dias de sol, quando quase nunca cá estou, penso na tua varanda e como podia ter morrido umas quatro vezes caso o resguardo em ferro forjado decidisse desfazer o abraço que tinha com o granito. Às vezes olhava lá para baixo a tentar perceber se sobreviveria e raramente me sentia optimista. Nunca tive curiosidade em tirar essa teima a limpo, note-se, mas tinha a queda tão calculada como tinha passado horas a pensar como fugir pela varanda no caso de nos acordarem numa noite qualquer a uma hora qualquer com uivos de fogo e socorro, breu e tosse por todo o lado e eu, com a maior das calmas, a salvar-te pelo canto esquerdo da varanda, bem próximo da janela do teu vizinho que, entre tantas noites a esperar-te, fui aprendendo a abrir do lado de fora.
Numa dessas noites em que te esperava -podia ter morrido duas vezes só nessa noite porque me debruçava no ferro para ver se aparecias- pratiquei como fazer um chocolate quente pastoso / enjoativo e como fazer com que a primeira qualidade não causasse a segunda. Ao chegares, a única caneca que restava era uma vermelha que lá tinhas sem asa e tu a corrigires
- É pega, não é asa.
eu a sorrir, assegurando-te
- Passo muito tempo de cabeça no ar, não preciso que me pegues, prefiro que me...
o pensamento a meio e tu com uma mancha de chocolate no queixo a desafiar
-...preferes que te ase?
contrariado admito que essa minha condição de cabeça no ar inclui não ter os pensamentos acabados na cabeça quando começo a falar. Apago da tua cara o sorriso e a mancha de chocolate num só beijo mas depois da tua varanda não duramos muito, o inverno acaba com os amores porque estes não podem ir à varanda e não há chocolate quente que simule aquela viscosidade nada enjoativa dos carinhos leves ao sol.
Depois da tua varanda vim a conhecer esta janela cabisbaixa que, já estive a ver, em caso de incêndio não me deixa escapar. Caso uma desgraça aconteça hão-de encontrar uma caixa preta com uma janela de plástico e lá dentro uma caneca igual à tua, tão alegremente inteira que se a tirar da caixa ela voa janela fora.
Dentro da caixa a caneca e dentro da caneca um post-it a dizer:
"Para que nem nas canecas te faltem asas, pega as minhas."

28 de fevereiro de 2010

Tristeza, cá, já e ainda é primavera

Só me apetecia chorar sabes? Apetecia-me não porque me apetecesse mas porque ninguém acreditava na minha tristeza enquanto não o fizesse. Um momento de emoção ou até só uma tremura de queixo bastaria para legitimar o momento solene. Lembro-me que quando era pequeno e o meu padrinho morreu me senti culpado porque lágrimas nem vê-las.
Sabes tristeza, não tenho tempo para ti. Às vezes bates à porta e deixas um bilhete no correio. Noutras ligas-me e eu deixo ir para voice mail. Nas vezes que chegas a entrar, habitualmente quando almoço sozinho na cozinha com o cão à espera da esmola, eu ignoro-te. Tu ali a olhar para mim como o cão, à espera de seres alimentada pela minha atenção e eu a fazer de conta. A abafar a tua presença com telejornal, jazz e planos acerca da sobremesa.
Ó tristeza quem dera que chorasse para que as pessoas lá no trabalho não murmurassem na Segunda-Feira que nada me atinge, que sorria como se nada se passasse e que não me importo por nada. Tristeza, pudesse eu ter tempo para ti ou acabasses tu com os cappuccinos feitos de café e espuma de leite, com a máquina do pão ou fulminasses os White Stripes e talvez te desse atenção e um assento ao meu lado no carro, no autocarro e à mesa nas refeições. Falaríamos imenso de banalidades e ocasionalmente desmoronariamos-nos em choros e prantos abundantes.
Agora indulgencia-me enquanto vou ali alegrar-me, por favor, não te quero entristecer mas nestes vinte e tal anos já te dei tanto e tu nada em troca.

21 de fevereiro de 2010

Full-Time

O que fazemos é a terceira ou quarta coisa mais interessante sobre nós. Mas nada mais que isso.
O meu avô era um tipo excelente, emocionava-se sempre que se falava de familiares mortos ou longínquos, era ligeiramente destravado na bebida e bastante profano na linguagem mas, acima de tudo ,era um humano bem disposto. O único defeito que tinha era achar que quando se reformasse a empresa onde trabalhava iria falir.
Um dia de manhã, supostamente enquanto se gabava da forma perfeita e fácil como manobrava uma prensa de papel até de olhos fechados a mão direita foi esmagada. Num minuto somos inteiros e noutro seguinte largamos farrapos.
Após esta reforma forçada o patrão dele empregou um puto da zona, sem qualquer experiência, que se adaptou bem e continuou a trabalhar lá até à eventual falência da empresa uns 15 anos depois.
O que ao crescer tirei desta história, real como o brilho que lhe crescia nos olhos sempre que se usava uma das bases de copos que eles lá faziam e que temos na família às toneladas, é que somos descartáveis. O que lá fazemos não é nosso património e mesmo que façamos um trabalho excelente há sempre alguém em formação que com alguns acidentes de percurso faz um trabalho bom o suficiente. Não somos nada.
E tudo bem. A sério.
Asseguro-me todos os dias que o meu maior trabalho, aquele que faço com maior afinco e dedicação está em casa. Uma família unida e carinhosa. Um local onde se trabalha bastante, se descansa pouco mas onde não sou descartável. Ninguém pode vir cá e fazer melhor trabalho do que o meu. Claro que um dia de manhã não acordo e deixo cá tudo. O local de trabalho e as tretas que partilhei com as pessoas para as quais e com as quais trabalhei.
Espero só ter tempo bastante para trabalhar para um moço ou uma moça que após a minha reforma tome bem conta da família, mesmo com acidentes de percurso, de uma forma melhor que a minha.

14 de fevereiro de 2010

Pianinho

Não te devolvi a foto que trago na carteira. Tu provavelmente nem te lembras de ma dar tal como eu não me lembro se ma deste ou se fui eu que ta roubei. Ela está ali, desafiadora e esbugalhada como tu. Parece até por vezes que me está a marcar o plástico como se o teu maxilar se enterrasse lá e tudo à volta fossem altos.
Enervava-te eu não tolerar barulho e de ti o único barulho que me agradava era o som dos teus passos flutuantes, esses pés pequenos largos nas sapatilhas brancas que só a Adidas faz. Aquele raspar nas pedrinhas como se ao andar calcasses pedaços de lâmpadas fluorescentes. Atrás de ti era como se caísse noite. Era como se fosses a assistente de um mágico e à tua passagem um pano de veludo preto caísse. Basicamente reescrevias a história porque ao passares havia um antes de ti e um depois de ti. Claro que na altura eu nem pensava muito nisso porque estava no teu presente, tu o meu ponteiro dos minutos comigo sempre a olhar em frente de braço - nunca mão - enlaçado.
Mas é como te digo, todos os teus outros barulhos me enervavam. Ao dormir não só me adormecias o braço com o teu maxilar afiado como expiravas imenso. Ao cozinhar mostravas nas panelas o talento que te faltou na bateria. Até na cama, no sexo ou algo mais, a tua anca estalava e eu parava com medo de te estar a desmontar alguma coisa.
No dia em que no seguinte já não regressaste desceste as escadas descalça, tijoleira fria e tu a descer. Nem um som de ventosa do pé descalço. Nada. Disseste
-Tenho de ir indo.
e fostes indo.
Se soubesses que tenho ainda aqui a tua fotografia, que vejo sempre que me pedem o cartão do ginásio, gritavas e batias - literalmente - com o pé no chão (Não gostava do som mas o gesto era amoroso) e como nunca gostei da tua voz nem estou para te ouvir partir lâmpadas mantenho a carteira fechada, abafada como se num daqueles dias em que dormias no meu braço, em vez de deixar que o teu maxilar me cortasse a circulação, eu te acordasse só para te mandar calar com um estalo na cara.

7 de fevereiro de 2010

Eu matei um tigre

Não conheço ninguém que parta corações ou desfaça sonhos de propósito. Não estou a dizer que não há quem o faça, apenas eu tenho a sorte de conhecer uns sacanas com alguma classe que fazem as asneiras sem intenção de magoar. O problema nestas coisas do magoar é que raramente se magoa com mentiras. É a verdade que nos rasga. E foi com a verdade que eu parti um pequenito coração.
Não sei se sei mais do que um miúdo de dez anos mas por vezes gostava de saber fazer aquele olhar deles e saber ser de novo inocente como eles. Depois esperava que nenhum adulto fizesse a leve sacanice de me dizer uma verdade cedo demais.
Que foi exactamente que eu fiz.
A minha prima, com os seus dez anos bastante mais esclarecidos do que à época eram os meus, confessou-me que os seus bonecos preferidos eram o Calvin e o Hobbes. Tal como o Principezinho e os desenhos do Tom & Jerry não há idade indicada para gostar, há sempre alguma coisa escrita nas linhas ou entrelinhas mudas que faz mais sentido em dado momento do que fez noutro. Há montanhas que nem vemos quando temos os olhos jovens. Os dez anos dela são mais espertos que os meus porque é uma rapariga curiosa que não tem vergonha de fazer perguntas.
-Olha, porque é que quando os pais do Calvin aparecem o tigre desaparece?
Considero mentir mas não consigo, lembro-me de já ter percebido a verdade sobre o Hobbes muito tarde e sentir-me estúpido. Nem sequer pedi uma segunda opinião com medo de ser gozado.
Depois da resposta, entregue com a minha sinceridade distraída, ficou o desencanto dela colado ao livro naqueles olhos enormes que herdou da mãe.
Expliquei-lhe que não fazia mal que o Hobbes fosse só um peluche porque muitas vezes o que imaginamos é melhor que a realidade e mais vale imaginar uma coisa do que não ter nada. Ela sorri contrariada a fazer um esforço para sacudir a desilusão.
Já era altura de ela saber que uma das coisas mais difíceis no ser humano é reaprender a gostar de algo ou alguém. O Hobbes merece o esforço.

31 de janeiro de 2010

Liquidação Total

Quando chegaste achei insensato que numa aldeia onde já se queimaram bruxas, onde se queimaram bruxas até depois de já não o fazerem em lado algum, quereres abrir uma loja de bruxarias. Nesta terra cremos em bruxas porque as há e sabemos quem são. É ver as senhoras correr para a mãe de santo para curar o casamento do filho ou o mau olhado que cai sobre as terras. Depois o dinheiro desaparece e ninguém diz porquê. Nos rumores do povo é o homem que joga ou bebe, derrete o dinheiro na boa vida, tem outra mulher.
Mas como ia dizendo, uma terra assim fechada e silenciosa precisava de uma loja que a obrigasse a falar no mercado. Esta terra precisava de uma pouca vergonha que a abanasse. Por isso admirei a tua coragem logo no primeiro dia ao copiares o vestido da deusa de louça de tamanho real que está na montra. Aquele tecido leve, transparente, aberto naquele decote que suplantava o da deusa em comprimento, largura e volúpia. A deusa, ideal e perfeita, não tinha o teu peito nem fazia esvoaçar o vestido, bastante acima do joelho, sempre que arrumavas umas cartas de tarot, uns incensos ou, que deus me perdoe, colocavas uma bola de cristal na última prateleira.
Na nossa biblioteca há dois livros sobre o oculto. Um sobre tarot e outro sobre runas. Para pedras já chega o meu trabalho e como sempre me safei bem à sueca trouxe o livro para casa e estudei tarot. Um plano genial que culminaria na minha entrada triunfal na loja, tu apanhada desprevenida a arrumar um livro de costas para o balcão e eu a dizer
-Ando à procura de um baralho de tarot de 1956
Assim como vou à cidade e peço um vinho de 2006. Com ar conhecedor, interessado e interessante. Uma comunhão de interesses. E tu a pensar na sorte que tiveste em vir para esta terra esquecida pelos deuses encontrar alguém como eu.
O tarot não tem nenhuma ligação à sueca. Não tinha tanta consciência disso como depois de estudar no livro. Esta era uma evidência que provavelmente me apontarias se o meu plano fosse simplesmente entrar na loja, de olhos envergonhados a perguntar sobre o que ali se vendia. Esse até poderia ser melhor plano. Não sei.
No dia em que acabei o livro, uns dois meses depois de o requisitar, decidi que era a altura certa de te fazer a tal visita. Da janela de minha casa via-te lá dentro com um ar aborrecido. Dizia-se que o negócio não te corria bem. Vendias umas velas aromáticas e pouco mais. Nesse mesmo dia, pela hora do almoço vários papeis no vidro diziam "LIQUIDAÇÃO TOTAL". Ainda nesse dia vi o teu olhar triste, a planetas do olhar desafiante e atitude atrevida, tão longe da deusa de louça como no primeiro dia a deusa estava de ti. Vi a tua atitude de desprezo a ver as velhas a entrar todas faladoras e interessadas como verdadeiros abutres de promoções que são. No final compravam uns incensos e estava feito.
Tinha pouco tempo portanto saí de casa com o plano B nas mãos. Entrei, o espanta espíritos a anunciar a minha chegada (lá se ia a parte do plano A em que te surpreendia de costas), tu a olhar vagamente para mim como se olha para um livro que não apetece ler e a dizer com pouca vontade de dizer fosse o que fosse
-Boa tarde, que deseja?
-Queria saber se a estátua que tem na montra também está à venda
Tu a hesitar...
-Não está. Estou com problemas em pagar a mudança daqui para fora mas a estátua é o que faz a montra, não a posso vender.
-É pena...
Tu a sorrires levemente. Parecias estranhar como se já não sorrisses à anos
-Mas para que queria a estátua?
-Estou a ver que vai embora. Vai antes que eu tivesse coragem de vir cá pedir-lhe explicações de tarot. Se eu ficasse com a estátua era um bocado seu que ficava comigo.

24 de janeiro de 2010

O lanche é a refeição mais importante do dia

Podias ter fechado a porta tal como podias ter desligado o telefone de todas as vezes que te liguei e depois de não ter mais nada para dizer ficavas ali a respirar no ar seco sem teres coragem de desligar.
Podias ter saído com um ponto e um parágrafo. Assim um final em grande. Uma frase marcada e citável por gerações e gerações que quisessem uma despedida com o impacto de um estalo na orelha. Podia-te ter ocorrido esquecer os nossos lanches em que eu te corrigia e dava perspectiva sobre a tua forma de fazer as coisas enquanto tu a mim perguntavas se estava tudo bem e quando eu dizia
-Sim está
nem tentavas confirmar se era verdade ou não.
Agora que me dizes,
-Sem os teus conselhos e a tua forma de ver a vida nada de bom me teria acontecido neste último ano, não teria coragem de insistir na minha relação e muito menos na gravidez que me uniu ao Marco
principalmente quando dizes
-Ele realmente merecia uma segunda oportunidade porque no fundo é boa pessoa
encosto a cabeça à almofada e penso que gostava muito mais de falar contigo quando te calavas e me ficavas a ouvir a respirar ar seco sem ter coragem de desligar. A ingenuidade de não notar o cansaço que transpira sempre que se diz que uma pessoa é boa no fundo faz notar que o tempo que perdi contigo foi, no fundo, tempo perdido.
O que eu não sei sobre ti chegava para escrever um álbum duplo de canções, admito isso, mas nem sonhas que o que não sabes sobre mim chegaria para preencher uma folha a escrever em cada linha de uma pauta musical como se fosses uma criança a corrigir a má caligrafia. Se tu tivesses vontade de ouvir mais do que a minha falsa felicidade ainda estávamos na sala de música a ditar letras para escrever nas pautas e, no meio de tanto material valioso usado indevidamente, tu perceberias que aquela música falava de ti e que talvez ter um baladeiro em casa fosse bom para a educação dos pequenos que me dizias nunca querer ter.
Não sabes por exemplo que eu só ficava suspenso ao telemóvel sem falar porque sabia o que queria dizer mas guardava-o aqui na ponta da língua à mão de semear.
-A minha prima meteu na cabeça que quer ser veterinária como tu.
-Passei de carro na tua antiga rua e estão lá obras.
-A minha irmã tem uma colega de trabalho com o teu nome.
-Ainda não lavei o casaco que te emprestei em Braga.
Estas coisas ficavam no bolso da camisa à espera de um momento aflito em que eu não tinha nada de interessante para dizer e seriam a desculpa para te ligar e ouvir a tua voz a meio da tarde. Se estivesses perto lanchávamos e tudo se repetia.
Podias ter ficado pelo menos uma vez para jantar e podias ter percebido que uma casa sem música é como uma veterinária sem coração. É como uma mãe sem amor pelo pai.
-Sim, claro que sim. Canto no teu casamento... Levo uns amigos e fazemos uma coisa porreira.
Ainda bem que me ocupaste. Não podia faltar ao casamento mas também não se constava que fosse ter muito apetite.

17 de janeiro de 2010

Um optimismo realista

Acusavam-no de ser optimista. Assim da mesma forma como as pessoas dos meios pequenos acusam de coisas com nomes feios as senhoras divorciadas que saem à noite. Com aquela inveja dos fracos que têm já mais vida para trás do que terão para diante.
Acusavam-no de ser demasiado optimista e ele a sorrir, com um cinismo doce de quem tem consciência de ser um ciclope em terra de cegos. Nas conversas privadas dizia-se que um dia as asas da juventude haviam de depenar e quando ele desse por si tinha uma vida suburbana como todos os outros.
-Ele há-de cair na real
diziam todos esses outros a observá-lo à distancia, depois de ele passar, intrigados pela ausência de perfumes químicos no ar e genuinamente intrigados com a forma como o ar parecia aquecer à sua volta, genuinamente perturbados pela brisa quase vento que se punha após a passagem dele.
Um dia acusaram-no de ser ingénuo e nem calor nem sorrisos nem cinismo. Muito menos vento. Foi um furacão que se levantou e para que todos ouvissem
-Os ingénuos são vocês porque durante o tempo que passam a olhar para o chão já as oportunidades vieram e foram. Podiam ter aprendido comigo que o amor não é uma bóia mas sim um mar e vocês, conforme vos aprouver, uma rede de arrasto ou uma linha. Há que acordar cedo e lançar um isco vivo porque só o peixe do restolho morde pedaços podres de lixo a flutuar. Podiam também ter aprendido que o trabalho existe para que se preencham espaços mortos na nossa vida. Se tivessem aprendido isso teriam notado que o meu optimismo se devia a ter uma boa casa à qual voltar, pequena mas bem preenchida, que cheira sempre a cozinhados e está continuamente colorida a flores e ervas aromáticas escolhidas a dedo por uma mulher que às vezes não nota que eu chego porque está a cantar na sala ou a desenhar a carvão na janela. Vocês chamam optimismo. A mim, nada me parece mais real.

10 de janeiro de 2010

Docemente Pussilánime

Invejo certas línguas por possuírem vocábulos que a nossa não tem.
Os franceses chamam la mer ao mar, os ingleses dizem que alguém faz algo gingerly quando está com muitos cuidados e os alemães arrumaram a partilha de sentimentos por várias pessoas acerca de uma obra de arte na palavra einfuehlung.
A nossa palavra saudade é o melhor exemplo de uma palavra a ser invejada por outras línguas. Comprime vários sentimentos numa só entrada no dicionário e além disso soa bem. Tem um timbre benevolente embora raramente o seja.
Na minha lista de pedidos figurariam simplesmente duas: Docemente e pussilánime.
Docemente, do francês doucement, é a forma mais carinhosa de recomendar gentileza no toque ou no trato que eu conheço. Pedir mais doçura a alguém parece-me mesmo ser o cúmulo da poesia no meio de uma conversa.
Pussilánime, do inglês pussillanimous, fica lá longe do outro lado do espectro da bondade das palavras e quer dizer covarde no sentido de inapto por preguiça ou falta de ânimo. Claro que podia chamar a alguém um covarde preguiçoso mas o tanto que se perdia na tradução era inversamente proporcional ao factor ridículo. Sempre -e infelizmente acontece amiúde- que me cruzasse com alguém da minha idade ou mais novo, sem sonhos ou aspirações, de ombros e olhos caídos, conformado com a carreira e família que não deseja aturar só porque "tem de ser", chamava-lhe pussilánime.
Como não tenho essas palavras acabo por, com outra doçura e outras covardias, espalhar a magia e o inconformismo com os gestos e os olhares, o toque e o perfume das passagens razas pelos cabelos.

3 de janeiro de 2010

Entrevista

Na entrevista dizias que este era o teu miradouro preferido de toda a cidade. Fico à espera que passes, de coração à mostra, à procura de um amor que te agarre e que meta mais uma moeda no binóculo da ponta quando o tempo já estiver quase a fechar a objectiva. Estou à espera que passes a correr, nas tuas calças de fato-de-treino e sem música nos ouvidos, na entrevista dizias que gostavas mais dos sons da cidade, das gaivotas e das pessoas, até mesmo dos carros e das discussões nas paragens de autocarros. Gostavas mais disso do que qualquer música, até mesmo da tua, portanto enquanto estiveres a fazer a tua corrida vespertina e parares aqui a observar a tua cidade, com o nariz enterrado no binóculo eu vou aparecer, dizer olá e convidar-te para um café.
Tudo calculado claro levo-te ao café mais perto daqui, um verdadeiro tasco, e lá partilharemos uma fatia de bolo de cenoura, tu a beber uma cerveja eu um café, com os donos a achar que talvez sejas tu mas sem acreditar que és mesmo tu. Talvez na rádio cantes e eles ainda acreditem menos. Talvez te venham pedir uma fotografia para iniciar uma parede de gente famosa que por lá passou. De qualquer das formas eu a levar-te a um café modesto, porque disseste na entrevista que estavas farta dos tipos com quem te davas e que te levavam sempre a restaurantes e cafés caros sem saber que na realidade são os sítios castiços que te conquistam. São as pessoas modestas e desinteressadas que te apelam mais.
Mas passou demasiado tempo e tu sem vires, passou o tempo que tu levarias a passar umas quatro vezes nesse teu circuito de manutenção e passou em mim a esperança de esperar. Guardo o euro que colocaria no binóculo e o dinheiro que daria no café para partilharmos o bolo. Guardo esse dinheiro e vou espetá-lo na baixa, naquele café caro onde o café custa dois euros e uma fatia de bolo, menor até do que aquela que íamos partilhar, é caríssima.
Na próxima entrevista que deres não vás dizer que ainda não encontraste o amor que eu não fico com pena de ti nem te procuro mais. Se fizesses exercício todos os dias, tal como disseste, tinhas-me encontrado.

27 de dezembro de 2009

Década

Não foi fácil passar do ano 2000. Sentir a responsabilidade de passar aquele marco histórico, todo o legado de preocupações e superstições que anunciavam o fim do mundo e depois, numa enorme apoteose de coisa nenhuma nada aconteceu. Fechou-se o século numa noite de chuva normalíssima sem sequer ter o estalo de um foguete.
Mas para quem, como eu, nasceu a meio ou na metade final dos anos oitenta esta noite anónima em que o mundo não acabou haveria de ser o início da vida como ela deve ser.
Esta década foi a que mais nos ensinou. Foi aquela na qual mais choramos e sofremos. Mais amamos e aprendemos. Ao longo destes anos despedimo-nos sem saudade da adolescência e a responsabilidade fria da vida adulta chegou sem aviso. Durante todo esse tempo fomos descobertos e perdidos. Continuamos a estudar ou fomos trabalhar. Temos filhos e uma casa ou então uma dor que não vai embora por mais pessoas que deitemos na cama.
Se calhar até começamos a ter um pouco de saudades da adolescência.
Além disso vamos ter muitas histórias para contar sobre como o mundo mudou durante este tempo em que crescíamos. Nós, que supostamente seríamos uma geração sem causas, vimos terrorismo, guerra, crise, desemprego e tantas outras infelicidades públicas e privadas serem alinhadas para resolução. Nós somos os adultos. Havemos de resolver tudo.
Acima disto tudo, da gente que morreu e não devia e das lágrimas que caíram sobre quem nem conhecíamos fica a memória de uma década em que aprendemos a amar. A bem ou a mal abandonamos as paixões adolescentes e abraçamos o agridoce dos grandes amores adultos. Aqueles que nos marcam de forma como nunca outro antes marcou. Amores que se correrem bem podem demorar várias décadas a saborear ou se correm mal podem levar uma vida inteira a esquecer.
Depois do grande 2000 o mais importante que fiz foi aprender a amar. Foi dar uns abraços, uns beijos, uns passeios e acordar sempre numa cama quente ao lado da pessoa com quem me tinha deitado na noite anterior. Foram os sorrisos e as mãos enlaçadas. Foram as fotografias, as escadas e as calçadas. Os cafés e restaurantes com velas. Os animais a comerem-me da mão.
Foram as saudades de tudo.
Aprendi que só choramos pelas coisas que um dia nos fizeram sorrir e na próxima década, que está ali a chamar-nos, só desejo coleccionar sorrisos que retardem as saudades o tempo suficiente para que a chuva de lágrimas não caia, fria, em cima da fronha da minha almofada, contigo a ver.

20 de dezembro de 2009

Fala-me em reticências

Tinha ideia que o teu cabelo tinha a espessura de uma mina 0.5 de lapiseira. Tinha isso como certo até te pentear, naquela varanda gótica para o rio, e perceber que era ainda mais fino porque ao desenrolar nos meus dedos parecia até que cortava como papel.
Do lado de lá do rio um palacete com jardim, tudo em ruína. Sabe-se logo que uma casa está para morrer quando do seu jardim consta mais verde selvagem do que o colorido cuidado das flores.
-Um dia monto ali uma escola. Assim um colégio barato que só cobre o necessário. Todos os meses fazia as contas e cobrava o que fosse preciso. Eu ensinava Inglês e recebia 500 euros. Se fosse preciso vivia na torre ali de cima e ia parecer que dava aulas na minha sala. Às vezes tocava-se piano...
e sorrias, como sempre fazias quando acabavas uma frase com reticências.
Eu, que até então me tentava inserir na tua vida lentamente, abri de rompante a porta da tua sala de aulas para te tentar impressionar
-E eu? Posso ser o professor de educação física?
tu com um sorriso contrariado disseste
-Sim claro.
na realidade elogiava-te demasiado e de repente a nossa relação era um teatrinho romântico a tentar estrear numa cidade industrial. Eu o palhaço poeta, tu a filha do patrão emparedada na tua crença de ser impossível um dia seres feliz.
Depois do fim do sonho e da continuação da nossa solidão devias ter continuado a ir ao nosso café. Lembras-te do Senhor Mendes? Cavalheiro à antiga que era mais simpático contigo quando eu não estava? Mesmo depois do fim ele merecia que de vez em quando lá fosses pedir um bolo para levar só porque ele embrulharia o pacote com melhores dobras e um laço de algodão que no final recebia a frase naquela voz a pedir desculpa por existir
-Aqui está menina. Bom proveito e obrigado.
Depois do fim eu continuei a ir lá e tanto eu como ele empedrados com a tua ausência à mesa. No trato frio das transacções e quando peço um lanche como tu sempre pedias ele não mo embrulha com fio
-Um euro e vinte se faz favor, obrigado.
No ar a ausência das tuas reticências fazem com que os pontos finais caiam estatelados no meio das nossas frases. O que fica por dizer é relativo a ti e por isso tanto melhor que fique guardado num vácuo da vergonha e receio.
Esta semana, a faltar tão pouco para o Natal, eu agradeci-lhe em teu nome dizendo que tu lhe mandas cumprimentos. Os olhos a sorrirem, milhões de minutos de rugas absorvidos e a voz naquele tom que ele guardava para ti quando eu não estava
-Desejo um santo Natal a si e à sua menina...