27 de fevereiro de 2011

Um penedo

Se eu te der um pedregulho constrois, por favor, um castelo em cima dele? Terás a facilidade em perceber, através desse teu feitio de raínha, que sem uma base sólida o teu castelo depressa volta à sua condição de areia desagregada?
Repara, eu sou só um pedreiro, ocasionalmente trabalho em ferro mas sou essencialmente pedreiro. Tive até, admito, de procurar pedregulho no dicionário para perceber se não estava a incorrer em erro. Também procurei incorrer no dicionário.
Queria só concordar com o teu brilho e apontar uma coisa qualquer ao céu, pôr-te lá em cima e todas as noites dizer-te que a solução de isolamento térmico era excelente e que podias dormir só com um lençol.
Vá, diz-me, se eu te der um pedregulho montas todo o teu castelo em cima de mim? Alertas-me das fugas e das datas em que teremos que renovar a tua pintura, os teus caixilhos?
Em troca peço só que me deixes espreitar para o que se esconde por detrás das tuas ameias, que desguarneças as seteiras e que rendas os guardas definitivamente. Vem daí. O tempo é curto e com fundações sólidas eu te deixo manter as inúteis muralhas.
Se eu for o teu pedregulho prometes forrar-me desse musgo vivo que se arrasta nos teus olhos?

30 de janeiro de 2011

Falas curtas

Dizem-me que nos dias em que andas por aí eu não me deixo iluminar pelo sol e que só os passos gelatinosos que me levam até ti soltam luz, só intervalando quando, em surdina, te eclipso uma piscadela de olho. Nesses dias mais longos eu mando-os calar. Tenho muito mais em que pensar.

19 de dezembro de 2010

Só tu

É extremamente difícil seguir a minha vida a ouvir a tua voz a dizer palavras. Imaginar como seriam certas expressões ditas na tua doçura. Não ter à despedida a despedida com o meu nome a acentuar o carinho.
É morrer cinco vezes ao dia ter agora de nunca mais dizer olá aos teus caracois pela manhã, deixar sós os teus olhos amendoados e partir dessa cama (onde nunca me deitei), da mesa (que nunca vi) sem pequeno almoço e do cabide da porta (onde os meus casacos pesados nunca repousaram) sem a missiva que evidentemente deixaria onde te diria
-Só tu..
se alguma vez tivesse oportunidade de te deixar para aí cartas assim.
Ando preocupado comigo mas não espero que te preocupes tu porque, em boa verdade, poucas vezes fora das necessárias trocas fortuítas de importâncias deves ter pensado em mim. Pouco sós devem estar neste momentos os teus olhos, talvez fechados ainda por umas palpebras que alguém beijou antes de adormeceres. Ou então estás acordada a ver a pessoa que te preenche a cama, a tomar o vosso pequeno almoço e lá ao fundo, no cabide, os casacos e bonés dele.
Um dia disseste-me
-Só tu.
e eu fiquei feliz por achares que naquele momento e daquela forma só eu.
Agora eu, só, me deixo aqui sem medo de ti nem dos teus cabelos, nu se pudesse à frente dos teus olhos tão grandes e tão redondos e tão amendoados. A passar ou parado. Podia até ser num daqueles momentos em que te apanho a olhar para mim.
Um dia poderia ser que te apanhasse esse olhar e to obrigasse a fixar em mim com uma careta ou um carinho. Poderia fechar-te as pálpebras com um beijo e dizer-te
-Só tu...

14 de novembro de 2010

X

Uma vez disse-te que se inspirar fundo fizesse tão bem como diziam, os humanos teriam evoluído para só inspirarem fundo. Cada um dos nossos milhares de movimentos respiratórios diários seriam longas inspirações. Tu, não habituada a teres de te explicar na minha língua dizias que não sabias falar comigo.
E não sabias mesmo. Dei-te emprego em 2005 por seres a reveladora de fotografias mais talentosa que tinha visto. As tuas fotografias não eram nada de especial mas a claridade, a focagem, os jogos de luzes na tua pós-produção eram uma arte em si própria. Que fosses imigrante ilegal era um pormenor que estava disposto a ignorar.
Depois havia o teu cabelo. Nas poucas conversas fluídas que tivemos contaste-me que na tua terra havia muitas loiras altas portanto o teu cabelo negro e a tua estatura mediana eram vistos como exóticos. Portugal era um bom país, havia muitas mulheres como tu.
Mas a questão é que não havia. Tal como ninguém - nem mesmo eu - conseguia com que uma fotografia ganhasse aquela fineza e detalhe só com o uso de químicos ninguém tinha esse teu cabelo. Essa tua graça.
Eu sou um amante desajeitado. Tento atrair por antagonismos. Discutíamos muito e eu gozava o facto de não entenderes o fascínio por poesia, mesmo depois de teres lido, ou assim o julgo, um livro traduzido que eu te dei e que me deu a mim imenso trabalho a encontrar. Dizias que a vida era como as tuas fotografias (dizias sempre tuas fotografias) uma coisa acontece, há um intermediário, a coisa modifica-se.
Eu gozava-te porque dizia que o amor era um intermediário, a poesia outro, a cor dos teus olhos era só mais um, mas esta terceira parte tu não entendias. Perguntava-te se o yoga não era para ti uma experiência poética e tu só me dizias que o yoga resumia-se a respirar fundo.
Preocupava-me esse teu niilismo bem como o final da fotografia de película. Comprei uma impressora com um quinto do teu tamanho e tu um dia tiveste a bondade de me dizer adeus, beijo na cara, mão no braço. O cabelo preso para não me prenderes a mim nele. Tanta a bondade e tanta a poesia que era preciso alguém que nela não acreditasse para a transportar com tanta leveza.
No outro dia no correio estava um mapa de uma cidade do teu país, um X marcava uma rua.
"Aqui. Ainda fotografia química. Vem cá."
Ando aqui a congelar uma lágrima para que ela não caia no mapa e borrate o X. Todos os dias tomo o pequeno-almoço e olho para o mapa.
Lavo a loiça, respiro fundo, vou trabalhar.

3 de outubro de 2010

Outra bebida

Tenho aqui umas tantas profanidades guardadas para te contar. Coisas que me apareceram de noite e me tiraram da cama, levantaram-me e serviram-me uma porção de leite com chocolate (não bebo uísque desde que te convidei e tu não vieste).
Não sei como é com as meninas mas, com os rapazes, das feridas nascem medalhas. No dia seguinte ao mais espampanante tombo de bicicleta vamos para a escola de calções e manga curta. O mundo fica a saber que somos valentes. Fomos, vimos e doemos.
Chorar? Isso é para bebés porque já somos meninos grandes.
Que faço eu à ferida que tu me deixaste? É que na vida adulta os rapazes tornam-se homens e esses só ganham medalhas se exibirem ao peito as feridas que espetaram nos peitos de umas tantas mulheres. Não estamos preparados para o contrário.
Tentei inventar uma intentona a ti. Recusaste um convite com segundas intenções mais ou menos evidentes que detectaste e deflectiste.
Sim, o leite com chocolate às quatro da manhã põe-me bastante palavroso.
No fundo as profanidades que me acordaram eram simplesmente o meu desejo de te oferecer o meu braço para te aconchegares e o meu colo para pores os pés enquanto deitada no meu sofá estudavas a lição para o dia seguinte. Este mesmo sofá onde me sento agora e ingiro o último gole de chocolate enquanto digiro o remorso de não te ter pegado logo nos lábios e colado-os aos meus como um dia outro te fará desenvergonhadamente para te levar a concretizar ponto a ponto os meus sonhos. Num outro sofá, com outra bebida.

5 de setembro de 2010

Mais ou menos

À memória da Susana, julgo ser esse o nome dela, que tinha os lábios mais botticellianos e os dentes mais alinhados do meu grupo de conhecimentos falo dos infelizes. Dedico-o à memória dela não por ela ter morrido literalmente, julgo isso não ter acontecido, mas sim porque uma vez casada com um idiota a mulher morre.
É a maior aflição do homem sensível a excessiva contemplação das desgraças da vida e como as mãos, braços e pernas são pequenas demais para as resolver. Nos homens inteligentes a maior desgraça é não haver tempo para amar e ler, amar e ver um filme, amar e comer uma boa refeição. Um homem inteligente ou é bom numa coisa ou noutra. A consciência de ser médio em ambas resulta em aflições várias.
Estas são as desculpas dos Homens a sério. Os sensíveis e inteligentes.
Um bronco não tem desculpa para se sentir miserável e muito menos tem o direito de reclamar para si um par, feminino ou masculino, para infernizar e menorizar de forma a se sentir melhor. A Susana, que a terra lhe seja leve como hélio, deixou-se morrer coitada. Conheceu o seu carrasco num dia qualquer e deixou-se anilhar.
Coitada.
Como escreveu Adam Langer, em todos os bares de toda as cidades de todos os países em todos os continentes desde o início dos tempos há um idiota deprimido que traz agarrada ao seu braço uma mulher impressionante e delicada e todo o bar pára a olhar para o casal a imaginar como uma mulher daquelas foi acabar com um idiota daqueles.
Como foste parar aos braços desse idiota Susana, se é mesmo esse o teu nome, como?
De qualquer das formas não me constou que o restaurante onde te vi tivesse parado, nem ninguém se apiedou de ti e te resgatou. Talvez por te ver mais ou menos feliz e mais ou menos sorridente e hoje esse ser a média aceite. Mais ou menos amor e mais ou menos felicidade.
Essa que é a aflição do homem romântico: O mais ou menos coração, mais ou menos emoção. Mais ou menos fidelidade.

4 de julho de 2010

Como as sardinhas

Era um homem largo, portentoso. Com o olhar azul aberto como um horizonte e uma malinha que chocalhava de cada vez que se ajeitava no banco do autocarro para permitir que uma das madames se sentasse. Não que fosse necessário mas o boné divulgava a todos quantos quisessem reparar que estávamos na presença de um homem do mar. NRP Corte Real e uma figurinha do navio de guerra português bordados na frente do boné.
As miúdas demasiado excitadas, mais novas que a sua idade real, que vinham da praia ainda a cheirar a creme e areia a usar roupas que no tempo de juventude do nosso nobre marinheiro seriam proibidas. Ele com os olhos nelas, parecidas com as dezenas de sereias que deixou por aí, na costa africana, mulatas e pretas, belas e a cheirar a suor e praia.
Às catraias de hoje ele comia-as, perdão, bebia-as com os olhos. Mais suculentas que o punhado de peixes que trazia no balde tapado. Só aquelas três moças deixavam-no mais vergado do que o dia inteiro de faina rochosa ao sol. Nada incomoda mais um homem que os pedaços de juventude que deixam por aí e aos marinheiros, em cada levantar de ancora, é um naco que lhes sai e fica enterrado na areia do fundo do mar.
Só aquelas três moças foram como três tiros de morteiro da fragata que o nosso herói apanhou naqueles olhos tão largos e tão cor de mar. Elas foram e ficou a serenidade. Haverá certamente mais marés e sereias nunca são boas conselheiras.

27 de junho de 2010

Apontar

Todos os rapazes sabem que nas festas conhecem raparigas mas é preciso chegar à vida adulta para perceber que nas festas se conhecem mulheres. E durante algum tempo essas mulheres, belas que são, apenas existem no gémeo da perna discretamente exposta, no promissor decote em V ou nas pupilas dum par de olhos azuis que dilatavam a cada pulsar das luzes. Ora, a Inês era isso tudo e mais umas centenas de caracóis castanhos que me apontava como se fossem dedos indicadores.
Como transformar uma perna, o fenomenal decote, as pupilas inadvertidamente exageradas ou os cabelos em tema de conversa é outra das coisas que só na vida adulta se entende. E faz-se, com maior ou menor dificuldade até porque o sorriso da Inês não podia ser postiço, era largo demais, com aquela doçura que só os sorrisos de dentes tortos têm. Uma aproximação lenta, um
-Olá, boa noite.
a resposta envergonhada e os tais dentes enviesados a filtrarem um
-Olá
que mal conseguia vencer a música.
O resto, como escrevem os jornalistas quando querem encurtar os artigos, é história. Mais sorrisos, toques de ombro, danças (africanas, latinas e outras), bebidas e a confissão súbita
-Desculpa, tenho de ir embora.
E foi. Foste. Inês.
Tu que me poderias apontar o que quisesses: uma mão cheia de caracóis, um desses teus olhares relaxados que reduziam a pupila e aumentavam a íris azul como água de piscina, os lábios, mãos, pés ou um mamilo, um prego para furar a parede quando pendurássemos uma das minhas fotografias ou os teus diplomas na nossa parede preferida da nossa casa.
De tantas coisas que podias apontar e nem o número deixaste, nem o teu nome inteiro para te procurar à minha maneira. Nada. Só o nome Inês, a perna e o decote, os dentes infantis e o olhar como um anel fino de prata.
Há coisas que só descobrimos na vida adulta, uma delas é que nunca deixamos de permitir que façam de nós uns miúdos.

6 de junho de 2010

Vou comprar umas calças vermelhas

É injusto que apareças assim no meu autocarro, tu com mais sete anos do que tinhas quando reprovaste no décimo primeiro e eu que esperei por ti até ao fim da faculdade que tive de ir tirar às ilhas. Tão burros nós éramos meu deus, as notas e os professores concordavam e eu passei a acreditar que não seria nada nem ninguém como o meu pai me dizia quando eu era pequeno. Esperei por ti num lugar ao qual não se chega de autocarro e só agora fica a menos de vinte contos, desculpa, cem euros a viagem de avião. Não contava que num momento de turbulência, no voo, claro, tu estivesses lá ao meu lado a fazer conversa de circunstância e de repente
-Vánia? És tu?
e seres mesmo. Não contava com isso. Mas entrares no meu autocarro, sentares à minha frente e brincares com o relógio é que não; agitares o cabelo e o perfume mesmo ali, à distância da grossura de um livro de poesia do meu nariz, era como se fosses de repente uma assistente de bordo ou a única capitã a pilotar aviões da TAP. É injusto que entretanto tenhas aprendido a combinar os sapatos vermelhos com o relógio vermelho que por sua vez brilhava com as leves flores vermelhas que a tua camisa branca aberta até àquele ponto que só as mulheres crescidas sabem qual é. É injusto que as calças de ganga fossem tão bem com o azul dos teus olhos que, raios me partissem se não olhassem para os meus (nem que tivesse de me deitar à tua frente mas havias de olhar!) não me conheceram.
Não foi fuga tua. Tu não me viste absolutamente nada.
É injusto andares agora a aparecer por cá, uma vez hoje e quantas mais no futuro nem sei, eu que me mantive ao teu nível e à espera, eu que derreti a minha média em explicações de um ano que não era o meu e tardes a estudar o que a tua mãe depois nos apanhou e proibiu de estudar e à espera. Eu que ainda hoje não aprendi como se combina uma camisola com um casaco como deve ser, calças de ganga só das muito azuis e muito gastas e o relógio, esse fiel velho, ainda é o mesmo que o meu pai me deu na última vez que achou que eu valia alguma coisa. Mantive-me burro e deselegante para ti e entretanto alguém te ensinou a ser uma mulher. Daquelas que abrem a camisa até aquele ponto que só elas sabem onde fica.

9 de maio de 2010

Janelinha

Já vi vários nomes para aquele buraco da porta por onde se espreita para ver as pessoas que nos batem à porta mas de todos janelinha parece-me ser o mais indicado. A tal janelinha foi desaparecendo porque quase todos vivemos agora em prédios ou moradias com aquele aparelho que empalidece e descolora as pessoas que nos pedem para entrar. Uma porcaria de um telefone de parede que nem sequer mostra cores e que solta um som de tiro sempre que abrimos a porta à tal pessoa que quer entrar. Nunca usei um desses aparelhos porque à frente da minha casa tem um estabelecimento com vidros espelhados que me deixam ver quem me pede para entrar.
E gosto tanto da ideia da janelinha que, ao tirar fotografias, nunca olho para a imagem electrónica em lcd plasmado de não sei quantas polegadas e em vez disso espreito pela janelinha que com umas linhas finas faz um quadrado que enquadra quem eu quero aprisionar. Eu que nunca fui fotografado em condições tiro retratos incríveis porque ninguém está à espera que fotografe. Ao olhar pela janelinha julgam que estou a brincar e não têm tempo de posar um sorriso. A mim nunca fizeram este favor. A mim tiram-me fotos usando aquela luz laranja que nos avisa que vem aí uma foto de flash. Eu, que a posar fico sempre um centímetro pior.
A mim atendem-me sempre com o tal aparelho que desbota e descolora e mal consigo perceber o que me perguntam. Se eu te atirar uma pedrinha para a janelinha prometes não te assustar e abrires-me a porta?
Levo cores comigo, prometo.

2 de maio de 2010

Cliché

Fiquei há pouco tempo a saber que clichés e, mais etimologicamente evidente, estereótipos eram conjuntos de letras ou frases que apareciam várias vezes juntos em livros e jornais portanto, isto no tempo em que as impressoras aplicavam mesmo pressão sobre a folha para marcar as letras.
Hoje em dia ambas as palavras perderam este significado e trazem consigo o peso do mofo e da inevitabilidade. Uma pessoa fugir à norma é contra-corrente mas, simultaneamente, ser rebelde por sistema como diz a minha caríssima Mitó numa música dos Naifa é um enorme cliché. Estar apaixonado é, com grande tristeza minha, um enorme cliché.
Claro, sim eu sei, naqueles momentos não pensamos bem nisso. Só nós no mundo estamos a sentir algo do género. O tempo pára e tudo mais. Eu sei, a sério, estive lá. Fiz isso. Falem com alguém que conhecem só para ver se não lhes sucedeu o mesmo. Por esta altura as nossas experiências foram mais ou menos as mesmas que dos outros todos. Lá está o raio do cliché.
O que não é cliché são todas as coisas que se fizeram entretanto. O que fiz na manhã após ter conhecido o meu amor não é vulgar. Muito menos o será o local onde demos o nosso primeiro beijo, nevoeiro e orvalho daqueles não há mais nenhuma vez nos próximos dez anos.
Mas no fundo, falar só desses momentos kodak é já de si um cliché. Esconder as melhores partes desse amor porque, como dizem os visionários filósofos de bairro, o melhor é para se guardar é um cliché. E não será isso uma óptima notícia?
Se o amor se tornar um cliché, sem se tornar uma vírgula ou o aroma volátil de um postal que de se abrir demasiadas vezes se perdeu, todos temos a ganhar.
Se o amor for vulgar na proliferação mas não no desgaste das línguas e do desleixo abriremos todos uma gaveta, como calculo que os senhores das impressoras o faziam, onde guardamos a nossa palavra favorita, sempre brilhante e polida pronta a ser usada.

11 de abril de 2010

Metropolitano

É com demasiado desprezo que se olham e olham para todos e para o exterior. É com o nariz levantado em desafio e um leve esgar de nojo que ouvem. Não cheguei a perceber porquê mas os lisboetas mais novos, que não são nem ingénuos nem sábios porque já passaram a idade da simples estupidez sem ainda terem chegado à idade da calma e contemplação, são bastante ingratos. Para um portuense descomplexado, que já passou a idade da estupidez e tacteia cada vez mais na contemplação da diversidade e da simplicidade é confuso como numa cidade como Lisboa se consegue ser triste. Há ruas iluminadas e casas amarelas. Há velhas nas janelas e cães a ver o sol não aos quadrados mas aos arabescos floreados de ferro forjado nas varandas. Há a tal luz de que eles, os lisboetas sábios, falam e que só nos tiram as palavras quando cá chegamos e, depois de regressados "lá acima", há aquele intangível indizível que nos obriga a recomendar a visita.
As paixões não se explicam. Ou há ou não há. Por isso gostar de Lisboa quando se cresceu num sítio onde se cantava
NÓS SÓ QUEREMOS LISBOA ÁRDER
de cada vez que se vergavam os tais poderes estabelecidos é um mistério. As paixões surgem como nas bússolas avariadas quando a agulha se vira para a direcção errada mostrando-nos um sítio que não o destinado e que surpreende. Agulhas de bússola ou nos carris do metropolitano. Dedos em riste num mapa de uma montanha ou de uma cidade. Qual a diferença na realidade?
E as lisboetas? Como surge a facilidade de as levar a sério na sua classe e excentricidade? Nas lojas e nos fados, porque somos magnetizados do positivismo do nosso peito ao positivismo das montras e ondas sonoras? Como é que nesta terra os pólos iguais não se repelem?
Por isso aos miúdos com cara de nojo e manias de grandeza, naquela fase etária na qual já não têm vergonha e começam a ter confiança, cresçam. E rápido. Percebam porque a gente do mundo se junta nas grandes cidades e porque no regresso não têm nada de negativo a indicar tal como eu, no meu regresso "lá acima", antigo, mui nobre, sempre leal e invicto, levo comigo o sol e os azulejos, as velhas nas janelas e o cheiro do óleo no metropolitano. Logo eu que gosto tanto da palavra metropolitano.