11 de março de 2012

À minha duna

O meu melhor só me surgia quando estava triste. Era um facto tão meu quanto o meu nome que nos momentos de maior amargura a fertilidade de palavras aumentava, as ideias deixavam os meus dedos e marcavam as folhas daquele papel especial que o meu caderno tinha.
Depois vieste e mostraste-me que também com felicidade se consegue ser normal e caloroso. Contigo aprendi que a fertilidade depende das horas de sol que se coloca na face, nos braços e nos dedos. As minhas palavras saíam luminosas porque tu raiavas em mim com essa tua bondade e generosidade. Os meus dedos como folhas de um girassol a seguirem-te. Mas como é típico de todos os sois, e mesmo neste ano de chuvas ausentes, lá te escondeste e segues escondida sem aquecer as minhas palavras.
Sem ti como vão elas crescer?
Agora, já não me lembro do que era ser triste mas também já não te consigo apontar no calendário quando foi a última vez que sorri. Estou aqui sem tristeza e sem felicidade e sem as minhas palavras.
Estou sem ti.
Vou encher estes buracos que as coisas que me fazem falta deixaram com sono e palavras de outros, com passeios avulsos e o espanto dos dias que nascem sem que eu lhes peça. O buraco que deixaste, aquele maior e mais saliente (e do qual não falo a ninguém) fica aqui à espera que regresses com o vento como uma duna que demora a chegar mas que se ergue com calor e solidez. Se voltasses e te agregasses no meu peito criavas um processo contrário à erosão e fechavas o tal buraco com uma pedra rubra qualquer que me devolveria as palavras que tanta falta me fazem.
Tu, a minha duna!

Estas colocadas acima eram as últimas palavras que sabia escrever e tinha aqui reservadas para uma urgência, lê como se fossem sussurradas, preciosas como uma velharia, amostras de fragilidade e resiliência.
Guardei as minhas últimas palavras para ti, e que tal se voltasses?

26 de fevereiro de 2012

Dessaturação

Ando para comprar um cachecol laranja há meses. Mais de um ano talvez. Sou daquelas pessoas que acreditam no poder da cor para nos salvar a boa disposição e por isso mesmo só quem não me conhecia achou estranho ter namorado umas semanas com uma daquelas neo-hippies que fazem balões de sabão do tamanho de adultos na maior avenida da minha cidade. A roupa dela, a pele dela, até os olhos dela, de uma cor mais viva do que eu alguma vez tive ou conheci. Toda ela era vermelhos e laranjas e quando se cansou do meu cinza foi com a dessaturação da previsibilidade que a vi ir em direcção a novos caminhos de errante, numa avenida mais longa e mais recta que esta da minha cidade.
Falaram-me de verdes e azuis criativos mas foi no laranja que coloquei o meu objectivo. Ela, a artista de rua como gostava de ser chamada, não se deixava enganar e dizia-me
-A tua sala precisa de uma parede laranja
enquanto eu a tentava convencer que ter móveis de duas cores já era cor que bastasse. Na sala, como em mim, a roupa nunca pode ter mais de duas cores e essas são muitas vezes uma parte branca para uma parte preta. A sala precisava de uma parede laranja e já a teve precisamente no dia em que ela partiu com o pré aviso de uma chamada e sem chegar a ver a minha pintura apressada. Percebi então que eu também preciso da minha faixa laranja mesmo que ela não esteja cá para ver.
Ando hà meses para comprar um cachecol laranja, já disse, para trazer a cor que ela deixou, quase sem querer, na minha casa.

12 de fevereiro de 2012

A nossa praia

Havia uma praia abandonada naquele sítio e naquela altura. Às vezes, diziam, até a água se ausentava e enrolava noutras areias, colorindo de espuma outras rochas. Mas nessa praia, orfã de gente, estávamos nós a dar-lhe calor e pés que a marcavam e lá ficavam até ao eventual regresso da maré. Os nossos pés, dizia-te eu, contavam a história de estarmos juntos porque as pegadas misturavam-se e liquefaziam a areia como naqueles diagramas com solas, setas e números que ensinam a dançar Tango e Cha Cha Cha.
Cumprimos a promessa de dançar à hora das primeiras luzes da manhã. Se houvessem galos eles cantariam, tenho a certeza, mas à falta deles surgiram umas tantas gaivotas e periquitos-de-colar que antes do sol já coloriam os ares. Àquela hora, também nós fomos o primeiro sol, dançando próximos como duas estrelas que no encontro orbitam e que numa chuva amena se beijam ao som de nenhuma música.
Na realidade não estávamos na praia, não havia gaivotas nem periquitos-de-colar. Estávamos num passeio de uma rua qualquer a ouvir a rouca música dos poucos carros que passavam mas, ainda assim, o dia nasceu à hora da nossa dança e os lábios só se separaram para dizer, apontando
-Look, there's the sun
sem tirar os olhos dos teus.
É que o sol tem a graça de não nascer só nos montes e naquela estrada sem areia nem mar ele atirou umas dúzias de raios que inventaram um par de pássaros dos quais não sei o nome. O par de pássaros, que se note e não obstante a liberdade, não somos nós. São mesmo pássaros, asas, bico e música. Despiste-me de poesia porque agora anda por aqui uma ausência tua que nunca me abandona.
Após a dança não sonhei com mar e praia. Após a dança atingiu-me que como eu e tu, as estrelas, não havia mais ninguém no nosso planeta porque, àquela hora, só ali o sol nascia dançando e os sonhos, esses, são mais saborosos de olhos abertos.

5 de fevereiro de 2012

Pigmento

Dizem por vezes relativamente a Cesário Verde que este foi o primeiro escritor-pintor de Portugal pela forma como inseria ricos mundos pictóricos nos seus poemas. Várias vezes senti as mesmas dores que ele, ignorado pelas intrépidas moças para as quais, à altura, eu não estava à altura.
Mas até Cesário, cálculo, teria dificuldade em encontrar na sua paleta palavras para descrever certas cores e foi disso que me lembrei quando me disseste nessa tua língua complicada de entender que os teus olhos tinham uma cor
-Indefinível
com essa mesma palavra, usada inocentemente e de forma espontânea, tentaste-me pintar uma aguarela que respondesse à minha pergunta
-Afinal de que cor são os teus olhos
dita naquela língua que é tua e da qual só sei uma quantidade limitada de frases.
De facto indefiníveis eles eram e assim ficaram sem que eu me preocupasse muito com isso porque o melhor que nos acontece fica nesse intermédio das coisas mágicas que acontecem sem explicação, imagem ou palavra. Entre nós houve e haverá daquela poesia que não se guarda numa folha, o teu cheiro não cabe em nenhum frasco, o sabor do teu beijo não existe em nenhum condimento de nenhum mercado bairrista de nenhuma cidade do Mundo.
Dizem que aguarela é uma das técnicas de pintura mais difíceis de dominar. Tenho então tempo para aprender a pintar com a água tingida até que um dia vou descobrir que cores tenho de misturar para chegar ao tom dos teus olhos e aí parto à aventura de descobrir novos tesouros teus sobre os quais me debruçar.

14 de janeiro de 2012

Caminhos do Desejo

Disseram-me um dia que no Japão os jardins não têm caminhos.
Têm relvados, arbustos, canteiros, fontes e tudo o que é de esperar num jardim europeu mas caminhos nada. Só após a inauguração do jardim é que começam a surgir os primeiros sinais de formas eficazes de atravessar o dito jardim. Lentamente surgem traços como uma teia ou um jogo de correspondências como os que fazíamos na escola primária. A essas uniões que unem pontos opostos que, por alguma razão, interessaram a várias pessoas o suficiente para desbravarem relvado virgem dá-se o nome de caminhos do desejo.
Caminhos do desejo porque foram as pessoas, através do seu desejo de unir dois locais distintos que trilharam a rota. Dizem-me que após essa fase de experimentação o jardim volta a fechar para se proceder à pavimentação dos tais caminhos.
Quando me disseram isso fiquei a pensar se connosco também não seria assim. Dois grupos juntam-se e depressa se desbravam os caminhos necessários a juntar o A com o 2 ou o B com o 4 como nas fichas da escola. Depois o C e o 1 apaixonam-se e formam uma avenida principal como temos no Palácio de Cristal a Avenida das Tílias.
O jardim que todas estas pessoas são fecha-se ocasionalmente para repavimentar a amizade e o amor com estradas em que a brita é substituída pela ternura. Não há nada que compacte o carinho como a ausência e o subsequente reencontro.
Nestes caminhos do desejo que nos unem não vejo obstáculos nem saudades inconciliáveis, para todas aquelas vezes que a relva mal cortada parece proibir os abraços calquemos com mais força para amarelecer de vergonha o tempo e as ocupações que nos afastam. E sempre que um buraco te torça os tornozelos e te faça uma mancha esverdeada nos joelhos eu estarei lá para te fazer rir da parvoíce de caíres depois de te levantar e te dar um beijo que, se não estavas, te pôs logo boa.

8 de janeiro de 2012

Sorte

No mundo todo há quatro tipos como eu. A sério. Procurem na internet quem são os quatro jogadores de poker mais bem sucedidos e vai estar lá o meu nome. De todos eu sou o que tenho mais sorte mas não sou o melhor. Eles leem mentes através de comportamentos reflexos dos outros jogadores e calculam probabilidades de determinada carta sair em determinada altura. A mim simplesmente saem as cartas certas na altura certa.
Os alcoólicos procuram no final de cada copo uma família, o amor perdido, o dinheiro necessário para endireitar o negócio da família. Como no final do copo há nada, só secura e abandono, reforça-se a dose à espera que no final do próximo apareça por magia o final da dor.
Estou ainda para conhecer um bêbedo que beba porque gosta de beber.
O mesmo acontece com o jogo. A um não viciado pode parecer que nos estamos a divertir. Não estamos. Estamos à espera que as coisas comecem a correr mal. Estamos à espera de perder vinte milhões de dólares numa só mão e reencontrar nesse final da sorte ao jogo o início da sorte no resto. A tal família, o tal amor, em alguns a saúde. Dinheiro, felizmente, é preocupação que já não temos.
Quando a minha mãe se apercebeu que eu transportava o gene do pai dela, que nem conheci, benzeu-se três vezes. Contou-me que os homens da família tinham todos essa boa fortuna de fazer fortuna sem esforço. Ela estava convencida que até príncipes tínhamos na nossa genealogia mas eu ignorei até chegar ao secundário e ganhar sempre à sueca.
Nas noites familiares ao Dominó.
Na faculdade apostas desportivas.
Qualquer coisa que envolva aleatoriedade eu transformo em dinheiro.
Pelos vistos o gene não se transmite a mulheres. Elas ao invés têm sorte ao amor, razão pela qual a minha mãe casou cedo, foi feliz e teve filhos cedo mas foi sempre pobre. O meu pai, das melhores pessoas que este planeta já aqueceu, morreu cedo traído pelo seu próprio gene defeituoso herdado sabe-se lá de onde.
Às vezes calham-me umas tantas mãos seguidas em que perco e penso que acabou, ganhei dinheiro que baste para três vidas de cem anos, chegou a hora de partilhar a minha pérola, que nasceu aqui um dia mas que eu por estar só, tão só, não sei a quem deixar.
Ocorre-me que a sorte me tenha abandonado naquelas ocasiões seguidas em que as mãos não prestam e as cartas não são favoráveis. Mas lá ela volta, pacientemente esteve à espera que eu acreditasse na sua partida para depois me surpreender e dizer de novo um olá que me sabe azedo.
Aceito o que ela me dá, até me deixar vai ser sempre assim, não sei como lhe fugir. Ela sorri e eu vou a jogo.

1 de janeiro de 2012

Bissexto

No fundo das escadas havia o quadro eléctrico, eu lembro-me.
A electricidade estática fazia o teu cabelo elevar-se no ar e eu, preocupado com o teu penteado, passei a dominá-lo com as mãos juntas, todos os dias. Na sombra da janela da porta, quando saíamos à noite, devia parecer aos vizinhos que eu te estava a esganar.
Penso nisto enquanto mexo num par de fios desligados da serie de luzes que usamos na árvore de Natal deste ano. Uma amostra de árvore para uma amostra de apartamento onde vivemos eu, tu e dois vasos com um girassol cada um. Vive também uma cama feita e um sofá para três numa sala onde todos convivemos com o tapete, com as cortinas e com uma televisão pousada numa estante adaptada que também vive cá.
Adoptamos há uns tempos um gato e uns livros. Do gato nunca mais soubemos e os livros foram morrendo das feridas que as unhas do gato deixaram na sua lombada, desfigurados como leprosos. Perderam os títulos e os autores com excepção do livro de poesia que te ofereci no ano em que nos conhecemos.
Era um ano bissexto e passar esse ano contigo foi como aquela hora que se dorme mais quando a hora muda sem pensar na ocasião em que a hora recua. Ganhamos um dia ao nosso tempo e ao aproveitá-lo nunca mais recuamos.
Hoje, podemos simplesmente ir ver como cai a chuva a cem quilómetros daqui, podemos ir verificar se a estátua daquela terra onde fazem a feira de enchidos está limpa ou dar a nossa opinião sobre o relvado daquele mosteiro do século XVII que há perto da casa do teu bisavô. Hoje aperto-te o cabelo como fazia antes de arranjarem o quadro eléctrico e beijo-te, como se te estivesse a asfixiar com as mãos e os lábios.
Os vizinhos devem achar que somos bizarros. Espero que sim.

18 de dezembro de 2011

À Patricia

Olhar para ti era como olhar por uma janela. Havia muito do movimento do ar em brisa e muito do aroma da manhã. Aquele misto de optimismo e resignação em que decidimos se vamos ou ficamos. Se a cama nos prende ou nos solta.
Todos os dias me perguntavas com o só-teu sorriso
-O que deseja
e eu, após a tua partida, dizia a quem me acompanhava
-Esta miúda é simpática
sem receber qualquer resposta porque na realidade nem parecias assim tanto.
Mas como estava a dizer, tinhas a rara característica nas pessoas que é tão típica das janelas que é dar-nos brisa perfumada. Tinhas também algo de porta porque parecia que após a nossa despedida o dia corria melhor, como acontece sempre com as portas que temos gosto em abrir. A porta de casa. Do carro. Do quarto de alguém íntimo. Todas aquelas portas que sabemos ser o derradeiro obstáculo antes de algo que nos vai fazer bem. Numa palavra: Luz. As portas trazem luz.
Assim sendo, nota bem, transportavas o vento limonado em brisa enquanto cá andavas e davas-me um melhor dia à despedida. Eras uma janela e uma porta em mim. Era como se de repente a minha vida tivesse uma nova varanda.
Faltou-me sempre a coragem de te dizer que podias deixar de me tratar por você e que o ar que encaracolavas à tua volta ficava suspenso a troçar comigo mesmo à minha frente como se fosse um daqueles cabelos finíssimos que param mesmo à frente dos nossos olhos e não conseguimos agarrar nem que disso dependa a nossa liberdade.
Agora já não trabalhas lá e as tuas colegas transportam o ar como as redes transportam peixe.
Perguntam-me
-O que vai ser
ou
-Que posso trazer
e não trazem nada com elas. Nem uma pequena luz que se abrigasse numa colher prateada.
Pelo bem que trouxeste, pelo ar rico em oxigénio e limão, pela luz matricial à despedida desejo-te uma casa inteira. Feliz e cheia de aromas, como parecias tu antes de me deixares aqui, sozinho, a fumar na varanda.

11 de dezembro de 2011

Não consigo evitar

Passou pouco tempo desde que não me apetecia escrever sobre ti, fotografar-te, andar a cheirar pescoços e beijar lábios de desconhecidas para tentar perceber antes de te beijar a ti como é que beijas e gostas de beijar. Ando pela rua a procurar pessoas do teu tamanho e peso, com lábios assim finos como os teus, de dentes alinhados com precisão como os teus a ver se sou perfeito através do treino quando finalmente chegar o tempo de pelo beijo selar o final destas saudades.
No fundo, não consigo evitar gostar de ti e não vou conseguir evitar dizer-to cedo demais tal como te hei-de beijar sem aviso de forma bastante atabalhoada, dente com dente, sem conseguir evitar que te surpreendas e durante um ou mais segundos fiques suspensa sem agir embora, aí dentro de ti, já saibas o que fazer. Já não há paixões instantâneas fora dos filmes há muitos anos e por esta altura já preparaste um plano de contingência para o que se vai passar se por acaso não me for possível evitar manter o carinho somente nas palavras e nos olhares e desejar, até necessitar, verter ternura pelos dedos na tua pele e pelos lábios na tua boca.
É que não consigo evitar querer entrar por essas comportas adentro e insuflar-te de água e oxigénio e sangue fresco, daquele que parece que faz picar as extremidades como o ar frio da manhã faz picar os olhos forçando uma lágrima repleta de alvorada a cair.

13 de novembro de 2011

Apontar

Aponto, sem que digas que é feio, as coisas que me fazem amar-te desde aquele encontro atabalhoado em que a meio troquei o teu nome por um que nem sequer era o de ninguém que eu conheço mas que te deixou desconfiada. O rádio tocava todas aquelas músicas fora de propósito e até o carro teve de fazer uma das suas, que eu já sabia existirem à data da compra, deixando-nos apeados no meio da estrada mais molhada da cidade que me era mais desconhecida.
Tentando fazer o possível com a situação que se desenrolava tu começaste a falar comigo enquanto olhava atónito para o interior do capot do carro, à espera que alguma peça assobiasse ou sangrasse como nos filmes. Um fuminho pelo menos que me dissesse o que se passava.
Eu tinha de te levar a casa embora não te quisesse levar a casa. Conhecia-te há umas horinhas mas já queria mais, ou melhor, ainda queria mais. Farto-me tanto das pessoas, das mulheres da minha era, que às vezes julgo não vir a dar netos à família e fica tudo dependente do ventre da minha irmã. O resto da vida romarias a casa dela e todos os olhos a fitarem o incapaz, eu, que nunca foi suficiente para encantar alguém.
Em ti nenhuma impaciência, sugeres caminharmos e chegar a qualquer lado, pedir ajuda. Ou simplesmente caminharmos e sorrirmos porque estamos juntos pela primeira vez e tudo o que havia para correr mal já tinha acontecido e agora só podia melhorar.
Lá. Eu, tu, umas caricias de chuva e duas mão enlaçadas. Nunca antes amei alguém sem os lábios se tocarem.
Aqui. Eu, tu e meia torrada com pouca manteiga a não encontrar o que me fez, faz e fará amar-te. Não tenho nada a apontar.
Aponto esse facto e sigo em frente. Para coisas feias já chegam os meus dedos.

23 de outubro de 2011

Taxa

Vou blindar os meus sentimentos por ti. Pô-los no cofre de um banco, o mais seguro da terra para ninguém os roubar. Desse depósito vou colher os juros, daqui a dois ou três anos, sem remover antecipadamente os valores aplicados para não perder quaisquer benefício.
Vai-me fazer bem.
Vou colocar a gravidade do amor noutro local, noutras mãos, fecha-lo atrás de uma combinação e uma porta corta-fogo e esperar que ele cresça ainda mais.
Quando os juros vencerem, juro eu que te ofereço o meu coração. Faço uma transferência interbancária, pago custos processuais e taxas.
É que neste momento eu, austero como poucas vezes me vi, não basto e preciso de tempo para recapitalizar.

18 de setembro de 2011

Tecido vivo

Vai sempre haver arrependimento e mágoa pelos volumes ausentes que deixaste cá. Em cima da cama, nas estantes, no meu coração e até no cinzeiro desactivado onde deixaste as chaves. Por aí toda tu e parte de mim, derramados e tristes como aqueles postes que iluminam ruas de prédios devolutos onde só moram velhos que vão para a cama às nove da noite com os respectivos falecidos.
Li que o Kurt Vonnegut certa vez deu um espirro tão forte que lhe saiu pelo nariz um pedaço de tecido vivo com veias e tudo. Isso inspirou-o a escrever um livro. Não tenho costume vigiar os lenços usados à procura de restos do meu corpo saídos pelos olhos e pelo nariz quando, por vezes, no início daquela música, a meio daquele filme ou no final, sempre no final, do riso hienico de uma gaivota eu choro sem parar. Às tantas já cuspi um pulmão inteiro e parte do estômago. Às tantas o sangue circula em mim mecanicamente sem nenhum coração para o espremer.
Às tantas cuspi-te a ti toda, não fetal já adulta, saída do meu olho direito, naquele lenço de papel de cozinha que estava ali mesmo à mão quando há um ano te fiz a mesa e o jantar e as velas acesas e nem apareceste.
Uma vez disse-te que tinhas a sombra mais clara de todas, os mais leves ombros e a respiração mais doce. Hoje falei de ti e tudo em mim escureceu, pesou e azedou.
A culpa foi minha, sempre, a culpa foi sempre minha amor.