3 de fevereiro de 2013

Natureza

Não sinto qualquer pressão no piscar do cursor tal como não me sinto pressionado pelo bater do meu coração portanto não tenho de te escrever nada só porque agora que te conheço o meu sangue corre mais animado e frutado pelas minhas veias. O sangue mudou ao chegares mas o coração é o mesmo. Ainda tenho menos de trinta anos, nenhum batuque me pressiona ou precipita. Ainda há tanta doçura aqui para distribuir.
Um dia mando tudo foder e dou-te amor à boca como os pássaros dão de comer aos filhos.

13 de janeiro de 2013

O Amador Pasmado

Já não me recordo como se começou a conversa que terminou em silêncio (como invariavelmente terminam todas) em que um amigo diz, sábio como sempre
-A fotografia é um daqueles prazeres que se deve manter amador. O profissionalismo chega e estraga tudo
e todos fizemos o tal silêncio no qual a conversa terminou e teria de terminar porque é assim que terminam todas as conversas.
Ontem lembrei-me de umas escadas nada silenciosas que terminavam numa parede que decretava "Proibida a entrada a quem não estiver constantemente pasmado de existir" ou algo do género que já não recordo citando um autor que não registei. Meio a medo entrei, pensando o tempo todo que sim, pasmo-me muitas vezes de tudo o que me rodeia, o que não é exactamente o mesmo de me pasmar pela minha existência. Tenho família, amigos e uma cidade que me justificam, acho que a nossa existência se pode resumir a isto e fico mais sossegado após ter entrado. Não me puseram na rua, ninguém me disse
-Ei, tu, sim... tu. Não me pareces pasmado. Nem sequer um pouco surpreendido. Rua
e eu saíria, mais pasmado pelo facto de ter sido expulso do que por existir. Não existiria mais por não ter lugar naquela festa.
Agora ao pensar na minha fotografia amadora recolho todas as coisas de que gosto e das quais não sou profissional. Poesia, teatro, condução, amor. Não publiquei livros, não subi ao palco, não sou piloto mas lá vou lendo poesia de outros, vejo outros a representar, vejo outros a conduzir. Aos poucos lá vou amando, pasmado (agora sim, senhores, ó para mim de boca aberta!) com a quantidade miserável de vezes que nos últimos anos amei. Aí sim, sou um amador daqueles que nem sequer em tempos livres representa que ama para enganar a barriga. Tenho visto outros a amar.
Não sou ingrato e pasmo-me com frequência com as boas notícias. Nem sei se por existirem ou por os jornalistas ainda as procurarem. Pasmo-me com a força que as minhas pálpebras conseguem fazer para que as lágrimas não caiam quando te vejo nas fotografias amadoras que tirei, dói a cabeça e ardem os olhos mas acontece tudo cá dentro e tu nem te apercebes. Às fotografias profissionais resisto melhor e também me pasmo por isso.
Acho que lhe vou dar razão, ao meu amigo, na fotografia como noutras artes, o amor é mais forte se for amador, porque é básico e sem auxílios tecnológicos que diminuem a falta de talento inato. Nesta pequena vida que ainda me surpreende, fico aqui solenemente pasmado pelas tuas existências, pelo teu ser e estar, como um amante amador, sem truques que disfarcem a minha falta de talento na esperança que um dia juntemos olhos, mãos e talentos. Por ti, através de ti, fazia-me profissional.

30 de dezembro de 2012

Sílica

Na fuga a esta humidade que aos olhos me chega das memórias, das tristezas de alegrias passadas que já não acontecem mais, há as letras que escrevo. Me, te, vos escrevo. 
Quando compro sapatos fico feliz quando um operário foi atencioso o suficiente de colocar um saquinho com sílica na caixa, fico informado, pelo diminuto texto no saquinho, que nos meus sapatos não há humidades mal-vindas e que não se pode comer a sílica. Quando era pequeno vivia fascinado pelas esferas saltitonas de sílica que estavam dentro desse saquinho como se fossem uma areia gorda e demasiado perfeita para ser natural e onde as ondas da humidade do calçado morriam sem deixar nem espuma. .
Hoje eu até já pago o meu próprio calçado e já não insisto em trazer as caixas de sapatilhas garridas (que inversamente ao poder de compra deixei de ter vontade de possuir) para casa, produzo a minha própria sílica. Mas em vez de pedrinhas esféricas nas pálpebras tenho letras nos dedos. Com essas letras faço palavras e nunca o mundo vê uma lágrima minha como se cada letra fosse um quilo de cimento que endurece as minhas pestanas formando uma barragem que armazena lágrimas a montante, amontoando-se até serem absorvidas por lençóis de água interiores, tsunamis de energia que desaguam na ponta da caneta.
Às vezes penso que podia destruir, atacar uma ilha em mim com correntes de escrita e alagá-la sem tempo para evacuações. Aquelas ilhas que nos dizem com a idade serem destruídas. Bondade, inocência e paciência. Baluartes do tempo no qual não sentíamos tanto essas dores de já ter crescido e nos terem mentido quando diziam que quando fossemos velhos mingávamos. Pudesse eu mingar e recuava até hoje. Porque hoje sou feliz e escrevo. Me, te, vos escrevo. 
E, como até a rir tantas vezes se chora, a sílica fielmente espera o seu uso dentro de mim com a paciência dos tais saquinhos que repousam dentro de uma caixa de sapatos que saíram de moda em 2008 e que um dia vão para o lixo, com o orgulho sem glória de ter feito um excelente trabalho.

17 de novembro de 2012

Newton

Na arte do frasear, de agrupar umas tantas palavras de forma agradável, há uns tantos guardas fronteiriços que refrescam os ânimos de quem grita poesia a cada palavra que passa. Apaixono-me com facilidade por detalhes sem interesse. Decorações. Para mim é tão importante a quantidade absurda de porta chaves que uma pessoa tem quanto o é a chavinha envergonhada e a porta que tão bem a conhece. Assim sendo, fico pasmado com a delicadeza com que alguém pensa num facto que sempre por cá andou e o fraseia de forma a que todos o entendam sem nunca deixar de o fazer bondoso com a língua e a estética.
Falar de mulheres é fácil para quem as ama. Pensa-se na tal que se ama ou, para efeitos dramáticos, na que se amou um dia e que nunca mais voltou a amar-nos. É como escrever sobre aves, flores, filhos, passos de gato ou olhos de cão. São coisas belas por si só, são monumentos da estética, ex libris da criação sem interessar muito se natural ou divina. 
"Para cada acção há uma reacção igual e oposta" é a frase de abertura da terceira lei do movimento de Newton e só isto, escrito numa qualquer letra decorada que impressione podia bem passar por poesia e pôr o mais atento dos guardas a coçar a cabeça e a chamar o chefe. Podia ter sido escrito de forma bastante mais básica ou simplesmente formulado numa fórmula que todos concordassem como correcta e verificável mas ao senhor Newton caíam maçãs enquanto pensava no mistério da gravidade. Alguém assim abençoado, simultaneamente alerta e grato por essas bênçãos, merece que uma língua lhe dedique poemas e abra excepções para que também a física possa ter um pedaço de poesia e lembre que nem todo o minimalismo é belo pois é bela esta física da atracção e do afastamento seu igual e tão oposto.

11 de novembro de 2012

Perdão

É tudo uma questão de perdão. Há coisas que perdoamos a algumas pessoas que noutras se torna impossível de tolerar. É assim a generosidade. Vi nos últimos dias, ao ser torpe com todas as outras pessoas, como sou generoso contigo. São as falhas comuns que, em ti, fundamentam a metafísica do ser do nosso amor. E isso só te perdoo a ti.
Não me lembro de alguma vez ter criticado a forma criativa como acentuas as frases. Podia ter-te expatriado cá de casa à primeira vez que trocaste a música a uma qualquer palavra. Mesmo uma das mais simples como bonito, chocolate ou livro tinham, ali logo à saída da tua boca um sabor e uma forma amendoada de partir.
Há coisa de dois anos, quem quero eu enganar, há precisamente dois anos, despediste-te prometendo
-Vou procurar a minha felicidade
e eu a olhar para ti sem nada para dizer, não havia forma de alguma vez essa tua busca te trazer de volta. Se a encontrasses, à felicidade, por aí ficavas pelo sítio onde ela estivesse se acaso ela não se cruzasse contigo andarias sempre a procurar. Em todo o lado menos aqui.
Mas perdoo-te. 
Tenho duas garrafas de vinho. Uma de cada, um tinto alentejano e um branco do Douro. No frigorífico tenho duas refeições, uma de cada. Carne e peixe. Nada me falta. Não se pode guardar a felicidade num frigorífico à espera que ela não se estrague e muito menos se consegue evitar que ela fuja se a engarrafarmos. A felicidade cria depósito se não for agitada, estraga-se. Perdoo-te então a ti teres ido à procura de algo que raramente perdoo a alguém pensar que encontrou por cá, comigo.
E se por acaso tu me perdoares e voltares, lembrar-me-ei das palavras da sempre-preferida Mitó, pois é mesmo muito provável que te volte a amar mas, espero que nesse dia, seja tarde demais.

28 de outubro de 2012

Repetidamente

Havia uma palavra qualquer ali no que as pessoas chamam ponta da língua mas eu nem sequer estava a falar. Estava a escrever numa daquelas máquinas de mensagens telegráficas com ecrã táctil portanto, no limite da teoria, tinha ali uma palavra na ponta dos dedos, a querer sair mas que não chegava ao ecrã. O cursor inquisitivo, impaciente, a piscar como um olhar que de tão aberto, seca e obriga a pestanejar. 
Repetidamente.
Tenho de dormir mais. Ainda me lembro quando as palavras ditas, escritas ou pensadas surgiam do nada. Era um tempo em que os sentimentos vinham à tona com mais frequência. Sorria e chorava mais. Às tantas envelhecer não é ficar mais triste ou alegre. Às tantas a idade desgasta por abrasão e vamos ficando despidos de mais uma camada de nós. E nem anéis nos crescem como às árvores para podermos dizer, à nossa morte, quantos anos tínhamos na realidade. 
Parece-me, isso sim, que em tudo há a tal relatividade. A palavra não me veio aos dedos porque eu sabia para onde ela ia, que olhos a iam ler e que dedos iriam depois falar de volta. Parece-me também que nestes últimos anos fico menos triste e menos alegre porque esse tempo passou. O tempo da incerteza e do desequilíbrio ficou naquele tempo em que saía de casa sem saber o que encontrar, sem saber que no meu país havias tu e os teus dedos, esse conhecimento genial e que só eu sei como se uma teoria geral de alguma coisa fosse. Como se entre nós se fizesse uma lei que nem milénios de experimentação conseguem negar. 
Depois de todas as palavras, que o cursor se lixe, que pisque, que seque como me secaram lágrimas e sorrisos. Envelhecemos mas no nosso país ainda estou eu, tu e os nossos dedos. Talvez te ligue e as palavras saiam melhor. Talvez te diga que gosto de ti.
Repetidamente.

7 de outubro de 2012

Saltemos

Confia nos meus joelhos pequena, sei que os conheces bem, sabes quantas vezes eles fraquejaram, sabes inclusive das vezes que eles fraquejaram por outras razões além de ti mas, vá, confia em mim e nos meus joelhos. Saltemos. O salto que eu proponho não dura distância ou altura mas sim tempo. Três meses desde a largada à chegada.
Sei que o tempo prejudica o corpo, estamos ambos naquele pico que antecede a descida, no zénite da saúde e alegria, como numa montanha. Estamos no local das nossas vidas do qual melhor se vê o sol de dia e as constelações à noite.
Quando o Outono chegou a nós, amarelecemos como se espera do estado outonal de estar. Livramo-nos das folhas caducas, do peso morto excessivo, da carga putrefacta e que não nos permitia saltar. Ficaram as poucas e boas folhas perenes, deixemo-las ficar pois só nos fortalecem, fazem-nos mais altos e com elas às costas, na ponta dos dedos, saltemos.
Sinto o Outono terminar e saltemos.
No salto passarão três meses e aterraremos seguros e sorridentes na Primavera. O Inverno? Deixa de existir. Este ano vai com as aves que dele fogem e em nós, por dentro de nós, rebentarão flores como no poema.
Saltemos o Inverno. Confia em mim e nos meus joelhos. Quando chegarmos ao lado de lá, porque isto vai ser possível, pode até chover e haver frio, pouco interessará. Cá dentro de nós seremos relvados floridos e jamais alguma nova tristeza nos poderá alagar.

23 de setembro de 2012

Rua

Há dias em que a minha rua jorra de carros e pessoas. Uns para cima e outros para baixo como se fossem sangue venoso e sangue arterial e a minha rua, naquela largueza estreita como só as velhas cidades têm, fosse uma veia daquelas importantes. Naquele tempo em que a subias trazias-me oxigénio puro e nem com a rua cortada o fornecimento dos nutrientes me falhava. Depois os carros só desciam. Depois decidiram só permitir que subissem. Achei bem. Chegavas mais rápido e trazias mais tempo contigo para consumirmos com o objectivo de nos saciar.
Depois o teu carro avariou, a linha de autocarro que cá parava parou de cá parar e tu deixaste de cá deixar o oxigénio e os nutrientes e ficou para aqui uma acumulação de sangue venoso mais azul escuro que o azul escuro que usam sempre para o representar nos livros de escola. Azul que ninguém vinha cá colorir. Mesmo depois dos autocarros voltarem a respeitar a paragem que recolocaram aqui à porta. Mesmo depois de eu comprar vasos.
No outro dia, como na canção que nesse dia ouvira, descobri que vives, gostei de o saber mas não perdi a cabeça como na canção se recomenda. O chão falhou-me e aquele acréscimo de oxigénio deu-me uma pequena euforia que fabricou o sorriso que tu tinhas levado contigo. 
Nesta rua que é tão minha, os carros sobem a motor e as pessoas descem a pé. Há pessoas a subir também de bicicleta motorizada e pessoas com compras à espera do autocarro naquela paciência de quem só pensa na sua casa. Eu vou limpando o passeio a balde e esfregão, faço um corredor que vai da caixa multibanco do fundo da rua até à minha porta. Hei-de fazer os 764 metros de cimento reluzir como se fossem mármore e tu subirás, se não escorregares, até à minha porta onde dirás como sempre
-Cheguei, trago-te coisas
como se nunca o tivesses deixado de dizer ou se nunca o tivesses dito a outros noutras ruas e noutras paragens.

12 de agosto de 2012

Parecer uma menina

Eu vivia com uma pessoa que me matava os bichos. Uma vez apareceu uma barata e ela, a pessoa que me matava os bichos, pegou nela e esmagou-a com os dedos. Foi lavá-los e ao regressar disse
-Pareces uma menina
a criticar o facto de eu ter estado uns bons trinta segundos a apontar com o chinelo sem nada fazer.
Essa mesma pessoa matou-me mais que uma vez a gripe. Quando lhe disse que achava que a gripe era imortal e que só a conseguíamos enfraquecer como nos filmes acontece com aqueles maus mesmo maus a resposta dela foi
-Pareces uma menina.
Agora que se foram todos: as baratas, as gripes, a pessoa que me matava todos estes bichos, tenho de ganhar o hábito de conviver com o bicho da saudade que não tem patas e não consta que seja contagioso mas que como os tais maus mesmo maus dos filmes não morre e apenas se ausenta durante um pouco para se fortalecer, à espreita do momento em que se pode instalar de novo ao nosso lado como uma barata gigante portadora de gripe.
E eu até pegaria no telefone e te contaria estas coisas mas já sei que a tua única resposta seria
-Deixa-te disso, pareces uma menina.

22 de julho de 2012

O senhor sem nome

Os gatos tinham adoptado aquele senhor. Diz quem tem gatos que nunca se tem um gato, o gato tem-nos a nós. Portanto digo que os gatos adoptaram o tal senhor. Ele, o senhor, lá pagava a sua taxa de adopção em géneros, servindo patés e rações que muito pareciam aprazer aos gatos.
Os gatos, mesmo os mestiços e bastardos eram bem educados e nunca tocavam no delicioso peixe que o senhor comprava logo de manhãzinha no mercado perto do mar, perto de casa. O senhor grelhava-os ao vento e, por mais que olhassem e miassem, para os gatos só continuava a haver ração e paté. Havia muita daquela suposta falsa caricia com o corpo como que a dizer
-Eu até gosto de ti
naquela linguagem corporal que é a dos gatos. Mas o senhor não vacilava e avançava pelos peixes adiante, resgatados das brasas de carvão, precisando de todos os dedos da sua mão direita (que eram só quatro) para contar os peixes que comeu. Com esses mesmos dedos ofereceu aos gatos as cabeças dos peixes, prenda que muito lhes parecia agradar embora notassem, como só os gatos o fazem entender, que a maior parte do peixe já lá não estava.
Um dia a porta do senhor não abriu. Esta era uma casa antiga, tinha duas portas, uma de madeira e outra de alumínio. A de madeira via todos os dias, a de alumínio ando agora a ver todos os dias mas demorei uns tantos, bem mais que os dedos que tenho em ambas as mãos (ainda conto dez deles), a entender que a porta de alumínio era como o proverbial caixão de chumbo que nunca mais se abre e não deixa ver o ente querido defunto.
Os gatos não ficaram todos, só por lá andam três que se vão mantendo com aquela suave banditagem dos animais urbanos que caçam pequenos animais vivos, recolhem pequenos restos dos caixotes e contam com a secular bondade dos estranhos. Eu e os gatos temos uma coisa em comum. Não nos interessava o nome do senhor. Apenas interessava que fazia o bem e comia peixe que não partilhava com ninguém. 
Isso basta-me.

17 de junho de 2012

Vandalismo

Quando nos assaltam a casa a primeira coisa em que pensamos é: "Será que eles já saíram?" Há aquele susto, aquele medo de nos fecharmos naquele espaço com alguém corajoso o suficiente para nos roubar.
Quando me apaixono também é assim. Não me sinto roubado mas há ali um medo que a pessoa já esteja cá dentro, escondida num armário ou numa gaveta e aí eu penso: "Será que ela já entrou?" cheio de medo que me possa fazer mal.
Na realidade mais vezes fui assaltado do que me vi apaixonado, vivo num local perigoso onde as mulheres não me interessam. Os perigos que me rodeiam não são causados por essas vândalas do coração. Ainda assim, mantenho umas trancas a fechar o peito porque já o vi roubado e os provérbios estão cá para nos proteger.
Um dia deixo de me preocupar e as portas e as janelas ficam abertas, mantenho os meus haveres à vista para que me assaltem, sem medos. No dia em que perceber que o que tenho para oferecer é tão pouco deixo de ter medo de o não ter ou de o desbaratar e permito que entrem sem me preocupar se ficam ou saem. Um dia vou perceber que quem entra deixa sempre mais do que leva, nem que o que fica seja residual como um cabelo ou uma impressão digital. 
Um dia ao perguntar ao vazio
-Está aí alguém
vou receber uma resposta positiva e em vez de medo vou ter orgulho de alguém ter pensado que eu tinha algo de valioso para roubar.

3 de junho de 2012

Habitual

Cansado, deitado no chão, sem responder à pergunta 
-Como se chama? 
deixem-me, se já não tenho unhas nos dedos nem me lembro como ganhei estas cicatrizes secas nas mãos serei ainda um homem?
Há uns anos eu era o Alfredo. Boa pessoa, trabalhador, casado e com dois filhos. Podia ser usado como exemplo em manuais para explicar o que era um homem normal e expectável.
Não consta que as aves migratórias se fartem da primavera, se assim fosse elas não rumavam a sul com as primeiras chuvas de Outono. As aves amam a Primavera e por isso seguem-na para todo o lado. Nunca se pegam a um sítio. As aves, como as pessoas, pegam-se a sentimentos e por isso tanto umas como as outras migram entre sítios que lhes dão esses sentimentos. Por isso não levo a mal que a minha família tenha migrado tal como a minha casa não se zanga pela ida das andorinhas. Deve ser da nossa natureza respeitar a Natureza e portanto tanto mulher como filhos foram para locais mais quentes quando por cá chovia e eu era um trovão em vez de um sol.
Perguntam-me
-Tem alguém em casa? Sabe onde mora? Vive sozinho?
e não respondo por vergonha. Peço um copo de água com orgulho e bebo-o lentamente. Quando o INEM chega perguntam-me 
-Como se chama?
e antes de poder responder um dos paramédicos diz
-Não te incomodes, é um habitual
e eu, que nunca gostei do meu nome, penso que me poderia dar por esse nome. Tal como há gente chamada Amável e Defensor eu poderia tornar-me no Habitual. Ter um desses nomes convidativos que parecem fazer uma introdução às pessoas como se andassem para todo o lado com um folheto que as explicasse.
-O seu nome é Alfredo não é?
e não respondo, ainda agora mudei de identidade e já vem um gajo qualquer dizer que me conhece
-Ainda na semana passada o socorremos. Tem de deixar a bebida Senhor Alfredo
O meu nome é Habitual, ainda há pouco você disse aí ao seu colega que eu era habitual. Escolha um nome por favor, a ventos tantos, a primaveras tão frias que passaram perdi a conta a quem sou.
-Agora vamos lá Senhor Alfredo, vamos para a ambulância, fica no hospital umas horinhas
Afinal sou o Alfredo na mesma, obrigado pela ajuda mas deixem-me cá estar, frio por frio, nome por nome, fico aqui deitado que o tempo vai passando e as aves lá em cima olham-me nos olhos como que a querer levar-me com elas.