28 de agosto de 2011

Suficiente mais

Não gosto de ti o suficiente para escrever sobre ti. Demorou a perceber isto. Demorou qualquer coisa como três dias, interrompidos por algum trabalho e chamadas da família, a perceber que aquela página de meu bloquinho Moleskine (sou antiquado e vaidoso, duas coisas que não queres ver juntas) não iria ter nada de palavras ou desenhos. Poesia nem vê-la.
Estamos a uma vida inteira de distância e o tempo que é tão relativo anda a passar paralelamente por nós. Só que pronto, de cada vez que eu paro num apeadeiro tu já estás na estação seguinte e partes antes que eu, como se fosse um turista mais distraído e cheio de malas, chegue a tempo.
Mas é como te digo, não me fazes tremer o suficiente para me dares vontade de te falar sequer à tarde, quando em lanches tantos nos cruzamos nas esplanadas que têm sempre mais uma mesa, mais duas cadeiras e mais dois copos que podiam ser nossos se tivéssemos consideração suficiente um pelo outro para, como as pessoas normais, nos sentarmos a conversar sem óculos de sol. Com sorrisos lubrificados por refrescos e pausas admiradas.
Mas vá, comigo pensar alto dá sempre nisto da escrita, não tenho espírito para falar sozinho tal como não tenho espírito para falar contigo. E não, não gosto de ti o suficiente para escrever sobre ti.

24 de julho de 2011

Atlantis

A gravidade da solidão faz com que todos à nossa volta se aproximem. Esta gravidade, a física, a que rege e gere a atracção entre dois corpos é tanto maior quanto é a força da pessoa que, sozinha, "malabariza" as suas pessoas como de planetas se tratassem, naquelas órbitas excêntricas que tanto podem afastar como aproximar em tangentes que por vezes colidem e nos arrancam pedaços afastando-nos a nós da órbita que mantemos a alguém que por sua vez é mais forte que nós e tem o tal campo gravitacional mais intenso.
Alguém uma vez disse que somos feitos da mesma matéria das estrelas e não podia estar mais certo. Todos temos um sol. Um centro de vida. Um emissor de calor.
Por vezes, demasiadas, algumas dessas nossas estrelas morrem e cria-se um buraco negro que nos suga parte da energia mas que não nos consegue comprimir porque não nos consegue engolir. Pode até levar alguns dos nossos planetas órbitantes consigo mas a nós não.
Por isso meu amor eu posso explorar alguns planetas. Enviar uma lata com gente pequenita lá dentro para tirar umas amostras e regressar. Analisar amostras e decidir cancelar o programa espacial por falta de relevância de recursos do tal planeta onde espetaram uma bandeira do meu país.
Mas sol, meu querido sol, quando a luz baixa e a saudade aperta, quando parece que as constelações nos vão engolir vivos na escuridão, retorno a ti, para que a luz flutuante regresse e em auroras boreais me ilumine de novo como num big bang.

17 de julho de 2011

Não é sobre ti

Podia ter escrito aqui um texto que te levantasse ao espaço de todas as outras. Que te trouxesse a tantos amores que descrevo e perco por aí e aqui. Mas deixo-te estar aí onde estás e às outras, invejosas, deixo-as na ignorância de não se poderem comparar a ti. Não saberem quem és.
Ao perguntarem
- Tens alguém especial na tua vida
eu a poder responder
- Não
sabendo que minto tanto que devia ter vergonha e não conhecer nunca mais ninguém.
Acho que esgotei os meus momentos. Todas as pessoas têm uma conta aberta de momentos que lhes vão acontecer. Uns tantos morrem sem os gastar todos. Azar. Mas eu estou convencido que em trinta anos os esgotei todos e agora a minha vida vai ser sem eventos como dizem os ingleses.
É que estar sem ti faz o tempo passar na mesma. Não comer e não conduzir e não fazer praia deixa igualmente que o tempo passe. Mas não me lembrar do sabor das bolachas que fazias aos sábados de tarde ou não me lembrar do tamanho dos sapatos que compraste em Braga leva-me o dia todo. Lá fora escurece mas as horas ficam na mesma. Especialmente naqueles relógios que me ofereceste.
Eu não ia falar de ti mas falar de ti deixa que o tempo se esprema para fora de mim e já há algum tempo que de mim pouco sai sem que seja espremido. Têm de vir cá puxar e torcer para que eu dê alguma coisa.
Lembra-te de mim com ternura e generosidade porque nem de uma nem de outra as outras têm grandes sinais.

12 de junho de 2011

Rh sempre positivo

Quando vais levas sempre uma parte de mim. Não sei se é um coração ou um pulmão, o estômago ou o fígado. Sei sim que há por aqui umas saudades a sangrar. Eu a escorrer todo eu por todo o lado. Quero sorrir e os lábios não se abrem, quero dormir e os lençois ensopados de sangue não me deixam descansar.
Poderá um dia ser o nosso último e nós calmamente a ver os olhos a perder de vista. Poderá.
Mas não será hoje.

5 de junho de 2011

Quantos ciclones queres?

Ando cansado do Verão. Ando cansado da ausência de vento e da consequente ausência do movimento dos teus caracois. Tens aquele tipo de cabelo grosso e pesado, áspero. Vai muito bem com casacos e cachecois e ventos glaciares. No Verão cai e seca, fica ali inútil e quando se lhe toca parece olear-se e alhear-se.
Estou cansado da falta de dinamismo dos teus movimentos. Parece que toda a tua cabeça tem gravidade a mais como quando choras e as tuas lágrimas fazem o mesmo barulho que a chuva no chão. O teu cabelo é puxado para a terra como se fosse o polo positivo de uma matéria magnética que necessita do seu oposto e no entanto, de tão simultaneamente negativos, os nossos braços repelem-se.
Nunca aprendi a medir a tensão e a corrente. Nunca entendi como usando um fio de terra se melhorava a segurança dos sistemas eléctricos. Sou um tipo dos audiovisuais digitais. Se pudesse apontava-te uma daquelas ventoinhas do cinema e fazia com que os teus cabelos se excentrificassem como a saia da Marylin criando para sempre uma imagem icónica de ti.
Entretanto ainda agora começou Junho e, meu amor, podia vir um tornado para que daquela confluência de ar frio e ar quente surgissem energias antagónicas que nos unissem num abraço relampejante.

1 de maio de 2011

E é amá-la assim professora

Tive uma professora que me proibiu de começar textos com "e". E agora, mais ou menos adulto, independente, acostumado redactor de cartas para amores, vivo condicionado como se tivesse uma fobia causada pela correcção dessa senhora que certa vez, já reformada, me reconheceu
-Olha o menino dos mas
coitada.
Já senil confundiu-me, eu que tanto tentava ser copulativo, pelo amador do adversativo da segunda fila.
Eramos leves e nessa altura era mais fácil abrir corações e entrar. Tinhamos a carne mais tenra e quando íamos passear de comboio não estavamos fechados em túneis. Agora até de Metro somos obrigados a tolerar aquele tracejado descontínuo das luzes fluorescentes dos túneis. Não tenho medo dos "e" porque todos os dias sonho em dizer eu e tu substituindo os eu e tu com os nossos nomes.
Gostava de ainda poder arreliar essa minha professora (que nem de português era) mostrando-lhe que com uma carta começada com um orgulhoso "e" consegui convidar a Teresinha da primeira fila e que em todas as cartas fugi dos "mas" pois não me pareceu necessário erguer logo assim de início uma barreira no raciocínio.
Agora já nem lhe chamo Teresinha, professora, veja lá. A beijos tantos ela foi Tété, amor, querida, Teresinha e agora Teresa.
Ainda bem que morreu sabe? Não viveu tempo suficiente para ver estes meus abusos nem para descobrir que os Homens da sua amada ciência iam descobrir forma de encobrir os comboios.

10 de abril de 2011

Post-it

Não me importa muito o bem que me fazes quando cá estás e os sorrisos que me causas quando me beijas. Muito menos me importa o saber que estás lá pelo fim da tarde, quando começo a cozinhar, e tu chegas e mudas a música que me ajudava a saltear os legumes.
Ao que estou atento é à falta que fazes quando não andas por lado nenhum. A luz que parece que viaja contigo como se fosses com o sol na mala para aqueles países onde é dia o dia inteiro. O mal que me fazes ao não me beijares e o facto de estar cheio das minhas músicas e deixar queimar a porcaria das lasagnas congeladas que como quando não estás cá para me guiar.
A próxima vez que fores tens de deixar cá roupa usada no chão e uma lista de cds para tocar. Vamos ter de alugar um carro igual ao teu e estacioná-lo no teu lugar de garagem.
A próxima vez que fores embora faz com que eu não seja o último a saber. Dá-me um aviso de um dia. Faço-te um lanchinho para o caminho e largo um post-it todo decorado com uma dedicatória, um poema e o meu perfume teu preferido vaporizado para cima.
Consigo meter todo o nosso amor num post-it e num pão com manteiga.

27 de fevereiro de 2011

Um penedo

Se eu te der um pedregulho constrois, por favor, um castelo em cima dele? Terás a facilidade em perceber, através desse teu feitio de raínha, que sem uma base sólida o teu castelo depressa volta à sua condição de areia desagregada?
Repara, eu sou só um pedreiro, ocasionalmente trabalho em ferro mas sou essencialmente pedreiro. Tive até, admito, de procurar pedregulho no dicionário para perceber se não estava a incorrer em erro. Também procurei incorrer no dicionário.
Queria só concordar com o teu brilho e apontar uma coisa qualquer ao céu, pôr-te lá em cima e todas as noites dizer-te que a solução de isolamento térmico era excelente e que podias dormir só com um lençol.
Vá, diz-me, se eu te der um pedregulho montas todo o teu castelo em cima de mim? Alertas-me das fugas e das datas em que teremos que renovar a tua pintura, os teus caixilhos?
Em troca peço só que me deixes espreitar para o que se esconde por detrás das tuas ameias, que desguarneças as seteiras e que rendas os guardas definitivamente. Vem daí. O tempo é curto e com fundações sólidas eu te deixo manter as inúteis muralhas.
Se eu for o teu pedregulho prometes forrar-me desse musgo vivo que se arrasta nos teus olhos?

30 de janeiro de 2011

Falas curtas

Dizem-me que nos dias em que andas por aí eu não me deixo iluminar pelo sol e que só os passos gelatinosos que me levam até ti soltam luz, só intervalando quando, em surdina, te eclipso uma piscadela de olho. Nesses dias mais longos eu mando-os calar. Tenho muito mais em que pensar.

19 de dezembro de 2010

Só tu

É extremamente difícil seguir a minha vida a ouvir a tua voz a dizer palavras. Imaginar como seriam certas expressões ditas na tua doçura. Não ter à despedida a despedida com o meu nome a acentuar o carinho.
É morrer cinco vezes ao dia ter agora de nunca mais dizer olá aos teus caracois pela manhã, deixar sós os teus olhos amendoados e partir dessa cama (onde nunca me deitei), da mesa (que nunca vi) sem pequeno almoço e do cabide da porta (onde os meus casacos pesados nunca repousaram) sem a missiva que evidentemente deixaria onde te diria
-Só tu..
se alguma vez tivesse oportunidade de te deixar para aí cartas assim.
Ando preocupado comigo mas não espero que te preocupes tu porque, em boa verdade, poucas vezes fora das necessárias trocas fortuítas de importâncias deves ter pensado em mim. Pouco sós devem estar neste momentos os teus olhos, talvez fechados ainda por umas palpebras que alguém beijou antes de adormeceres. Ou então estás acordada a ver a pessoa que te preenche a cama, a tomar o vosso pequeno almoço e lá ao fundo, no cabide, os casacos e bonés dele.
Um dia disseste-me
-Só tu.
e eu fiquei feliz por achares que naquele momento e daquela forma só eu.
Agora eu, só, me deixo aqui sem medo de ti nem dos teus cabelos, nu se pudesse à frente dos teus olhos tão grandes e tão redondos e tão amendoados. A passar ou parado. Podia até ser num daqueles momentos em que te apanho a olhar para mim.
Um dia poderia ser que te apanhasse esse olhar e to obrigasse a fixar em mim com uma careta ou um carinho. Poderia fechar-te as pálpebras com um beijo e dizer-te
-Só tu...

14 de novembro de 2010

X

Uma vez disse-te que se inspirar fundo fizesse tão bem como diziam, os humanos teriam evoluído para só inspirarem fundo. Cada um dos nossos milhares de movimentos respiratórios diários seriam longas inspirações. Tu, não habituada a teres de te explicar na minha língua dizias que não sabias falar comigo.
E não sabias mesmo. Dei-te emprego em 2005 por seres a reveladora de fotografias mais talentosa que tinha visto. As tuas fotografias não eram nada de especial mas a claridade, a focagem, os jogos de luzes na tua pós-produção eram uma arte em si própria. Que fosses imigrante ilegal era um pormenor que estava disposto a ignorar.
Depois havia o teu cabelo. Nas poucas conversas fluídas que tivemos contaste-me que na tua terra havia muitas loiras altas portanto o teu cabelo negro e a tua estatura mediana eram vistos como exóticos. Portugal era um bom país, havia muitas mulheres como tu.
Mas a questão é que não havia. Tal como ninguém - nem mesmo eu - conseguia com que uma fotografia ganhasse aquela fineza e detalhe só com o uso de químicos ninguém tinha esse teu cabelo. Essa tua graça.
Eu sou um amante desajeitado. Tento atrair por antagonismos. Discutíamos muito e eu gozava o facto de não entenderes o fascínio por poesia, mesmo depois de teres lido, ou assim o julgo, um livro traduzido que eu te dei e que me deu a mim imenso trabalho a encontrar. Dizias que a vida era como as tuas fotografias (dizias sempre tuas fotografias) uma coisa acontece, há um intermediário, a coisa modifica-se.
Eu gozava-te porque dizia que o amor era um intermediário, a poesia outro, a cor dos teus olhos era só mais um, mas esta terceira parte tu não entendias. Perguntava-te se o yoga não era para ti uma experiência poética e tu só me dizias que o yoga resumia-se a respirar fundo.
Preocupava-me esse teu niilismo bem como o final da fotografia de película. Comprei uma impressora com um quinto do teu tamanho e tu um dia tiveste a bondade de me dizer adeus, beijo na cara, mão no braço. O cabelo preso para não me prenderes a mim nele. Tanta a bondade e tanta a poesia que era preciso alguém que nela não acreditasse para a transportar com tanta leveza.
No outro dia no correio estava um mapa de uma cidade do teu país, um X marcava uma rua.
"Aqui. Ainda fotografia química. Vem cá."
Ando aqui a congelar uma lágrima para que ela não caia no mapa e borrate o X. Todos os dias tomo o pequeno-almoço e olho para o mapa.
Lavo a loiça, respiro fundo, vou trabalhar.

3 de outubro de 2010

Outra bebida

Tenho aqui umas tantas profanidades guardadas para te contar. Coisas que me apareceram de noite e me tiraram da cama, levantaram-me e serviram-me uma porção de leite com chocolate (não bebo uísque desde que te convidei e tu não vieste).
Não sei como é com as meninas mas, com os rapazes, das feridas nascem medalhas. No dia seguinte ao mais espampanante tombo de bicicleta vamos para a escola de calções e manga curta. O mundo fica a saber que somos valentes. Fomos, vimos e doemos.
Chorar? Isso é para bebés porque já somos meninos grandes.
Que faço eu à ferida que tu me deixaste? É que na vida adulta os rapazes tornam-se homens e esses só ganham medalhas se exibirem ao peito as feridas que espetaram nos peitos de umas tantas mulheres. Não estamos preparados para o contrário.
Tentei inventar uma intentona a ti. Recusaste um convite com segundas intenções mais ou menos evidentes que detectaste e deflectiste.
Sim, o leite com chocolate às quatro da manhã põe-me bastante palavroso.
No fundo as profanidades que me acordaram eram simplesmente o meu desejo de te oferecer o meu braço para te aconchegares e o meu colo para pores os pés enquanto deitada no meu sofá estudavas a lição para o dia seguinte. Este mesmo sofá onde me sento agora e ingiro o último gole de chocolate enquanto digiro o remorso de não te ter pegado logo nos lábios e colado-os aos meus como um dia outro te fará desenvergonhadamente para te levar a concretizar ponto a ponto os meus sonhos. Num outro sofá, com outra bebida.